1. Psicanálise

Em 1893, Breuer e Freud comunicaram ao mundo a descoberta de que complexos de idéias inconscientes, carregadas de afeto, são decisivas na formação e manutenção dos sintomas histéricos.

Em 1894,1895 e 1896 Freud estendeu esta abrangência à formação dos sintomas da neurose obsessiva e da esquizofrenia paranóide.

Em 1900, os sonhos foram acrescentados a este conjunto, em 1901 as parapraxias e em 1905 os chistes também foram explicados a partir de complexos ideativos inconscientes carregados de afeto.

A partir de 1911, as produções culturais humanas passaram também a fazer parte deste conjunto, incluindo as produções literárias, a civilização, a mitologia, o folclore, as cantigas de ninar e todas as produções artísticas humanas, bem como as estruturas sociais e as religiões (1917, 1927,1930).

A causa da inconscientização destes complexos ideativos é a ação de defesas psíquicas aplicadas a eles, impedindo a sua ab-reação através da psicomotricidade e da expressão verbal. Tal proibição de acesso à consciência, à psicomotricidade e à expressão verbal se deve à natureza sexual e agressiva destas ideias articuladas (“complexos”).

Em 1905 ficou explicitada a natureza sexual inata (sexualidade infantil) destes complexos e em 1920 a presença da agressividade (energia da pulsão de morte) foi também reconhecida como inata e também inerente ao investimento pulsional nestas ideias inconscientizadas pela ação defensiva inconsciente do ego.

Em 1914 foi reconhecido o investimento libidinal no ego (libido narcísica) e em 1924 foi reconhecido o investimento de pulsão de morte (agressiva ou destrutiva) no ego (masoquismo primário e masoquismo secundário).

Já em 1895 foi descrito um aparelho psíquico portador de registros mnêmicos motivados, inconscientizados a partir da ação de defesas primárias do ego.

Em 1900, este aparelho psíquico estava dividido em uma região inconsciente (sem possibilidade de acesso espontâneo à consciência) e outra região pré-consciente (com acesso espontâneo possível à consciência). A consciência está ligada ao sistema perceptual e colhe informações dos mundos externo e interno.

Em 1923, este aparelho é descrito como dividido em ID, EGO E SUPEREGO, três instâncias psíquicas intercomunicantes que disputam o poder de acesso à psicomotricidade e à expressão verbal.

O ID é completamente inconsciente.

O EGO está com o controle da psicomotricidade e da expressão verbal e tem partes também inconscientes (as defesas, por exemplo) e pode perder este controle para o ID e/ou SUPEREGO, caso estas defesas falhem.

O SUPEREGO surge a partir de um núcleo de ideal do ego, sendo reservatório de grande quantidade de pulsão destrutiva que é responsável pela aplicação de punições e da desagregação das estruturas do ego.

O acesso à realidade, à lucidez e à capacidade de modificar construtivamente a realidade dependem da capacidade do ego em manter o controle da consciência – percepção – psicomotricidade – expressão verbal, através da ação das suas defesas inconscientes aplicadas a impulsos do id e do seu amor próprio (reforçado pelo sucesso nas relações de objeto) se impor às cobranças do superego, baseadas no seu núcleo ideal.

Esta comparação entre o ideal que o ego deveria atingir e a realidade do que o ego fez (e está fazendo) é a base das cobranças do superego ao ego.

Esta configuração básica da natureza humana, descoberta pela psicanálise, dá uma explicação verossímil para as atividades humanas, explicando a estrutura dos transtornos mentais e as motivações humanas mais influentes durante a vida.

Podemos então falar de uma sexualidade/agressividade inata que precisa ser organizada e harmonizada ao longo do desenvolvimento da personalidade.
Teoria do desenvolvimento da personalidade

A partir de um contexto com raízes míticas e ainda incognoscíveis, o ser humano nasce com um aparato psíquico capaz de se desenvolver em referencia a este contexto básico. Tal contexto é o de uma luta entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, inatas e inerentes à estrutura psíquica original.

A energia destas pulsões (libido e agressividade) se investe no aparato préexistente capaz de registrar as experiências psíquicas a partir da percepção dos objetos e fenômenos naturais. Temos então uma estrutura básica de memória, percepção, consciência, motricidade, animadas pelas pulsões.

A pulsão de vida tem o “vetor” sempre apontado no sentido da ligação, agregação, unificação, integração e perpetuação de estruturas psíquicas cada vez mais fortes e adaptadas à realidade circundante.

A pulsão de morte tem o “vetor” sempre apontado para a fragmentação, destruição, desagregação, desunião, desintegração e retorno às formas inorgânicas de existência.

Os dois “Titãs”, Eros e Tanatus, investem suas respectivas energias (libido e agressividade) nas estruturas de memória do (potencial) aparelho psíquico.

Podemos atribuir a Eros as ações que visam à sobrevivência do individuo (pulsões de autoconservação) e à sua perpetuação (pulsão sexual), enquanto a autodestruição e a destruição das relações de objeto, com ou sem lesão ao mesmo, deve ser atribuída a ação de Tanatus.

As primeiras descrições do desenvolvimento da personalidade se referem à libido (desenvolvimento da libido) e foram efetuadas por Freud (1905, 1915,1924) e Abraham (1922).

Entretanto, na própria nomenclatura das organizações libidinais, podemos perceber claramente a presença de Tanatus. Se não, vejamos:

– Fase Oral Sádica

– Fase Oral Canibalesca

– Fase Anal Sádica

– Fase Fálica

Isto é, Freud e Abraham perceberam claramente um masoquismo – sadismo primitivo, oriundo do investimento da pulsão de morte (Freud, 1920) no ego (Freud, 1924). Esta fusão entre libido e agressividade aparece desde o inicio e Melanie Klein se dedicou a rastrear os destinos da pulsão de morte, relatando, essencialmente, o seguinte:

  • Investimento inicial da pulsão de morte no ego (masoquismo primário).
  • Derivação da pulsão de morte para os objetos (seio, mãe)- sadismo, posição “esquizo-paranóide”.
  • Retorno da pulsão de morte ao ego (masoquismo secundário, “posição depressiva”).

Assim, a partir da interação entre o aparato psíquico básico (memória, percepção, consciência, ação) e a realidade circundante (mundo externo, mundo pulsional interno), o desenvolvimento da personalidade pode, ou não, se processar.

Inicialmente a dependência da mãe (objeto) é absoluta. Não há discernimento entre alucinações (oriundas dos registros, atingindo a consciência) e percepções. É inevitável que a pulsão de morte seja investida nos objetos (seio), para que o potencial de discernimento entre a alucinação e percepção seja desenvolvido pelo ego, através do teste de realidade, aprimorado em um principio de realidade.

Para tal, é necessária a contenção da energização dos registros mnêmicos, potencialmente alucinatórios, mediante a ação da defesa primaria do ego, capaz de retirar o investimento destes registros, impedindo, assim, a sua conscientização.

As defesas primitivas não são capazes de manter os registros mnêmicos energizados no Id; isto resulta na incapacidade do ego em comparar os registros mnêmicos com as novas percepções, o que resulta em sintomas psicóticos, por falta do predomínio do teste e do principio da realidade. O processo primário alucinatório original pode então assumir o controle da psicomotricidade também em vigília; tal fenômeno alucinatório ocorre varias vezes, à noite, nos sonhos, quando o acesso à psicomotricidade esta vedado pelo estado de sono.

Em síntese, podemos falar dos desenvolvimentos:

  • Da libido (energia da pulsão sexual)
  • Da agressividade (energia da pulsão destrutiva)
  • Das defesas inconscientes do ego e do ego
  • Do superego
  • Do aparelho psíquico
  • Da personalidade
  1. Fixação

Este conceito se fundamenta na existência da memória, isto é, um lugar do aparelho psíquico onde as percepções das vivencias psíquicas são registradas.

Assim, as experiências psíquicas são fixadas (registradas) na memória; as experiências repetitivas de dor e satisfação estabelecem facilitações, por onde a energia pulsional transita , buscando a descarga através da psicomotricidade e da expressão verbal. Deste modo, as coisas importantes na vida psíquica (nutrição, sexualidade, agressividade) se repetem a partir do encontro de modos eficazes de obtenção das descargas pulsionais específicas.  Isto estabelece os pontos de fixação da libido.

Em linhas gerais, temos fixações orais, anais e fálicas, correspondentes às fases do desenvolvimento libidinal. Os termos “organização oral da libido”, “organização anal da libido” e “organização genital infantil da libido” (“organização fálica da libido”) e “organização genital da libido” explicitam melhor o fato de o fenômeno ser constituído por modos de organização pulsional que tem sucesso na obtenção das necessárias e inevitáveis descargas pulsionais.

Na verdade, existem inúmeros pontos de fixação e subdivisões múltiplas das fases em subfases, sempre havendo a superposição de um período subsequente ao período anterior, isto é, por exemplo, o modo oral de organização da libido não desaparece nem é substituído pelo modo anal; o que ocorre é uma subposição do modo oral (mais antigo) ao modo anal (mais recente).

  • Regressão

Este fenômeno, que é também um dos mecanismos de defesa utilizados pelo ego diante das exigências e dificuldades da vida, denota a dinâmica e a reversibilidade das aquisições psíquicas. Isto é, o desenvolvimento da libido tem uma dinâmica relativa e bipolar, sendo passível de regressões. Estas regressões são causadas por frustrações e/ou deficiente trabalho psíquico de elaboração das necessidades psíquicas das fases anteriores.

Diante dos empecilhos e novas vivências ameaçadoras (perdas, aumento das exigências, decepções amorosas, mudanças sociais), a libido pode regredir aos antigos pontos de fixação infantis, pré-genitais.

Na serie neurótica, temos as seguintes principais regressões e seus resultados correspondentes:

  • Regressão à fase fálica- histeria
  • Regressão à fase anal sádica retentiva- neurose obsessiva
  • Regressão a fase oral canibalesca – esquizofrenia paranóide
  • Regressão à fase anal – expulsiva – melancolia
  • Regressão a fase oral de sucção – esquizofrenia hebefrênica

É digno de nota que as doenças psicossomáticas (onde os tecidos do corpo são os objetos lesados pela pulsão não investida em representações psíquicas (“vorstellung”), sejam criadas também em pontos de fixação, arcaicos, orais.

Na serie de regressões a partir da recusa da castração (“serie perversa”), o ponto de fixação da perversão do caráter (psicopatia) é oral canibalesco, o da pedofilia é anal-sádico e o do fetichismo é fálico.

Portanto, é a regressão que possibilita a existência de transtornos mentais e ela está presente em maior ou menor grau, em todos eles (“infantilismo psíquico”).

PULSÃO DE VIDA                         PULSÃO DE MORTE

  • Desfusão original das pulsões
  • Trajeto da pulsão de morte – Investimento no ego imaturo (masoquismo primário, 1924)  investimento no objeto parcial (“seio mau”)   objeto total (posição depressiva). Posição esquizoparanóide anterior.  (Klein)
  • Fase da ilusão. Fase da desilusão. Objetos transicionais. Espaço transicional. (D.W.Winnicot)
  • Portanto, o ego imaturo não suporta o investimento da pulsão de morte, transferindo-a para relações ( precoces ) de objeto. Assim, os relacionamentos interpessoais são, originalmente, um lugar psíquico para a descarga da pulsão de morte. Tal situação persiste, na vida adulta, nos casos das personalidades antissociais (F60.2 – CID10).
  • No bebê, esta é a posição esquizoparanóide, onde predomina o mecanismo de defesa responsável pela formação de sintomas psicóticos (IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA).
  • Simultaneamente, a percepção da realidade vai se desenvolvendo no ego e o bebê, aos quatro meses de idade, já é capaz de reconhecer a mãe como objeto total e perceber a impossibilidade de continuar derivando a pulsão de morte para a relação com ela (que deve ser capaz de “sobreviver a estes ataques”) (Klein/Winnicot)(“mãe suficientemente boa”) .

Esta situação inicial corresponde à fase oral do desenvolvimento da pulsão sexual (desenvolvimento da energia da pulsão sexual ou libido), descrita por Freud e  Abraham.

Este autor divide a fase oral  em fase oral de sucção e fase oral canibalesca. As psicoses esquizofrênicas são possíveis através de uma regressão a este modo inicial (arcaico) do desenvolvimento psíquico, onde ocorre o uso predominante da identificação projetiva como mecanismo de defesa aplicado à ação da pulsão parcial oral, com seus componentes libidirais e agressivos .

Pela teoria do desenvolvimento da libido:

  • Existe uma Sexualidade Infantil, sustentada por uma pulsão de natureza autoerótica, produzida em todas as células do corpo, com apoio nas zonas corporais que se relacionam com o meio ambiente (boca , anus, uretra) e que exerce uma pressão psíquica no sentido de encontrar a satisfação, de maneira isolada e autônoma; todo o corpo é erógeno.
  • Temos, portanto, as organizações oral, anal e fálica (uretral) (genital infantil), que precedem a organização genital do adulto sadio.
  • Todos os transtornos psíquicos são decorrentes de regressões da libido aos pontos de fixação nas organizações pré-genitais infantis. Assim, as psicoses esquizofrênicas são possíveis a partir de uma regressão a fase oral de sucção. A psicose maníaco-depressiva é possível a partir de uma regressão à fase anal expulsiva, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) (F42) (CID 10) implica em uma regressão ao modo de funcionamento psíquico da fase anal retentiva; a histeria implica em uma regressão à fase fálica; todas as perversões sexuais e do caráter são regressões a estas fases do desenvolvimento libidinal, mas com predominância da defesa psíquica da recusa da castração (não aceitação dos necessários limites impostos pela realidade). As neuroses e psicoses são “negativos” destas perversões, produzidos pela ação de mecanismos de defesa que restringem esta ação perversa original ao inconsciente individual.
  • A atividade pulsional original é de natureza perversa polimorfa autoerótica, isto é, buscando a satisfação na sua própria fonte. As pulsões de vida e de morte estão a principio separadas, cabendo ao desenvolvimento psíquico da libido a tarefa de fundi-las, sob predomínio da pulsão de vida, assegurando a possibilidade de reprodução biológica da espécie e da criação psíquica de novos seres humanos, a partir da capacitação dos indivíduos para o exercício das funções psíquicas da maternagem e da ação paterna, o que só se torna possível a partir da conquista do amor próprio (narcisismo), elaboração da castração e elaboração do complexo de Édipo, proporcionados pela ação psíquica da pulsão de vida, “Eros”.
  • As provas da existência, importância e ação decisiva do Inconsciente (ID) na vida do ser humano são oriundas do tratamento dos transtornos mentais pela sugestão, hipnose, método catártico e psicanálise, (mediante a interpretação dos sonhos, análise dos atos falhos (parapraxias), análise dos chistes, analise antropológica social, analise das produções culturais, análise de obras literárias, analise dos mitos, lendas e contos de fadas); são encontradas sempre as mesmas motivações inconscientes oriundas da ação da sexualidade infantil estruturada através do narcisismo, do complexo de castração e do complexo de Édipo, na gênese destes diferentes fenômenos psíquicos.

Observa-se, portanto, um desenvolvimento da libido, um desenvolvimento das  defesas psíquicas, um desenvolvimento do ego e um desenvolvimento do superego que, juntos,  promovem a contenção necessária da ação interna e externa (relações interpessoais, sociais) da pulsão de morte, proporcionando o desenvolvimento da personalidade,  com a criação de seres  humanos sadios, livres e com inteligência emocional suficiente para se tornarem boas mães, bons pais , bons amigos e trabalharem individualmente e em conjunto para a preservação da qualidade de vida, contribuindo para a sobrevivência da espécie.

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