Este livro tem como título original “The uses of enchantment: The meaning and importance of fairy tales”; é constituído por 2 partes, “UM PUNHADO DE MÁGICA” e “NA TERRA DAS FADAS”, onde o conto de fadas é comparado com a fábula e o mito.

Os aspectos psicanalíticos da fantasia, do principio do prazer, do principio da realidade, do conflito edípico, da recuperação, da unificação e da integração pulsional são abordados, com a ajuda de contos tais como “O pescador e o gênio”, “Os três porquinhos”, “A Rainha Abelha”, “Simbad”, “As Mil e Uma Noites”, “A Guardadora de Gansos” e outros, na primeira parte do livro.

A segunda parte consiste na análise dos contos de fadas clássicos: “João e Maria”, “Chapeuzinho Vermelho”, “João e o Pé de Feijão”, “Branca de Neve”, “Cachinhos de Ouro e Os Três Ursos”, “A Bela Adormecida”  e “A Gata Borralheira”, incluindo uma análise do mito de Édipo, em “Branca de Neve”, e observação do “Ciclo do Noivo-animal”,nos Contos de fadas.

Na Introdução, o autor enfatiza ser tarefa dos adultos “…ajudar a criança a encontrar significado na vida”, a partir da sua “experiência como educador e terapeuta de crianças gravemente perturbadas”.

Os contos de fadas são “explorações espirituais” nas quais são mostrados aspectos como a coragem e a esperança para abordar problemas reais da vida humana, que exigem traços de caráter fortes e definidos para a sua resolução; também o “caldeirão de emoções edipiano” é abordado e soluções são oferecidas, nos contos de fadas. A força do amor, sempre vencedora, sinaliza o caminho da coragem e da devoção, nas relações de amor e no casamento; “o conto de fadas hindu é terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução do seu conflito interior, “externalizado”, no conto.

As sagas nórdicas se referem a mitos e contos; os conflitos internos são expressos nos contos de fadas, bem como nos mitos. Mas, o conto de fadas é caseiro, simples, sempre “termina bem”, “é um presente de amor”, segundo Lewis Carrol.

Os “gigantes ameaçadores” somos nós, adultos; mas a astúcia pode vencer o gigante…

“O Pescador e o Gênio” é um conto das Noites Árabes; contos semelhantes, como “O Gigante na Garrafa”, por exemplo, existem em diversas culturas; a astúcia do pescador, desafiando o gigante que ameaçava matá-lo e voltar à garrafa, o salva da morte; sentimentos ruins, “engarrafados”, podem nos destruir…

“Os três porquinhos” nos ensinam a respeito dos perigos da preguiça, enquanto “um planejamento e previsão inteligentes, combinados a um trabalho árduo … (coordenado) pelo maior e mais velho, …nos fará vitoriosos, até mesmo sobre…o lobo”; a evolução e o progresso da Humanidade estão simbolizados pelas casas de choça àmadeiraàtijolosà e pela evolução id à superegoàego, no controle das decisões e ações, isto é, do principio do prazer ao principio da realidade, dominando e impedindo a vitória do lobo feroz e destrutivo… que representa os impulsos destrutivos inconscientes, em nós.

Segundo Piaget, o pensamento da criança permanece animista até a puberdade, “o sol está vivo, o vento fala, os animais conversam, as pedras estão vivas, os objetos falam”, dentro da “necessidade infantil da magia”. As coisas “mortas” podem estar vivas; “quem fui eu, quem sou eu, quem serei eu:”, se pergunta, a criança; “de onde vim, qual o sentido da vida”: …Existem poderes benevolentes:

A fantasia da “madrasta malvada” se relaciona com o “romance familiar”, descrito por Freud. São devaneios, fantasias, de que os pais não são verdadeiros, de que se é filho(a) de alguém importante, ou “um dos pais é falso”; a mãe morta e a madrasta malvada viva, dos contos de fadas, é útil para a criança, por lhe dar a permissão de sentir raiva da figura materna, preservando a “mãe boa”.

O “caos edipiano” pode ser organizado com a ajuda dos contos de fadas, com seus “polos opostos definidos e unidimensionais” (“…um animal (por exemplo) ou é totalmente devorador ou totalmente prestativo) que permitem a projeção da ambivalência em figuras separadas e opostas; os animais ferozes representam o ID, os animais sábios prestativos também representam o ID servindo ao ego; alguns pássaros brancos representam o superego.

As feridas narcísicas provocadas pelas traições femininas são tema das “Mil e Uma Noites”, se referindo, na verdade, a problemas narcísicos vinculados ao Complexo de Édipo.

O número três pode corresponder a id, ego e superego, bem como a “criança, mãe e pai”; conflitos edipianos são externalizados e resolvidos em “cavaleiro da armadura brilhante que salva a donzela em apuros do dragão destrutivo (menino à mãe à pai (dragão); (bruxa, princesa, príncipe), (mãe, menina, pai) (Rapunzel, Cinderela e Branca de Neve).

“João e Maria” conta a história de pais pobres, preocupados com o futuro dos filhos.

João e Maria fantasiam que os pais querem abandoná-los; eles são abandonados na floresta; João consegue encontrar o caminho de volta, da primeira vez; não resolve o problema e a mãe se torna mais astuta, nos planos de livrar-se das crianças; na segunda vez, João joga no chão migalhas de pão e os pássaros comem as migalhas; êles, agora, entram em franca regressão oral e a casa de biscoito de gengibre simboliza isto; devorar os biscoitos, destruindo a casa… é a linguagem das imagens, adequada para as crianças; a bruxa é a personificação dos aspectos destrutivos da oralidade e quer comer, também, …as crianças; elas evoluem, a partir da elaboração da voracidade e da dependência; são os pássaros que orientam as crianças; êles as orientam para enfrentar os perigos e as ajudaram; o engodo da bruxa (mãe) corresponde ao desmame e outras frustrações; se separam, ao atravessar o rio, e Maria demonstra maturidade; os tesouros que levam para casa são a independência de pensamento e de ação, advindos da autoconfiança; as forças inimigas são femininas (madrasta e bruxa) e Maria é a salvadora;  o resgate das relações boas com os pais é fundamental para as crianças.

Os “inimigos” vencidos foram: as ansiedades orais, o pensamento mágico, os conflitos edipianos e a dependência dos pais, que foram elaborados através da sublimação, da ação inteligente e da cooperação entre irmãos e com os pais, fornecendo meios para dominar os perigos do mundo, a partir do domínio sobre as figuras persecutórias da imaginação (bruxas, gigantes e outras).

“Chapeuzinho Vermelho” é uma menina “inocente”; existem várias versões e na de Perrault, a vitória é do lobo, enquanto que, na dos irmãos Grimm, a avó e a menina voltam a viver e o lobo é castigado.

Neste conto, a menina, em idade escolar, com as questões edipianas já atuantes inconscientemente, pode se expor a seduções; o lobo é sedutor; Chapeuzinho deixa o lar voluntariamente, não teme o mundo externo, que “é belo”; há um conflito entre o principio da realidade e o principio do prazer; Chapeuzinho se distrai colhendo flores em excesso, negligenciando o tempo e o caminho corretos; as dúvidas auditivas, visuais, táteis e gustativas mostram sua insegurança em relação àquilo que ele fantasia e àquilo que ela percebe; a mãe e a avó são impotentes e não há bruxas; o macho é dividido entre o sedutor perigoso (lobo) e o caçador forte responsável, firme e salvador (o Id e o ego).

Confiar em todos é perigoso; a ingenuidade traz em si algo que torna o lobo atraente…; ao ceder às tentações do lobo, dá a ele a oportunidade de devorar a avó; ela é castigada, sendo engolida também; a avó é infantil e segue o principio do prazer; a capa vermelha, atraente para o lobo, foi dada pela avó…; ela é pequena demais para lidar com aquilo que atrai, com seu chapeuzinho…vermelho; ela precisa se identificar e aprender com a mãe e com a avó.

Na puberdade as emoções edipianas reaparecem, e na história, as traições à mãe e à avó mostram a vulnerabilidade de Chapeuzinho à sedução do lobo…

O caçador não permite que suas emoções o dominem e não atira no lobo; sua razão o faz optar por retirar, primeiro, a avó e a menina da sua barriga; assim, ele salva os bons e castiga o malvado; a extração delas, do estômago, lembra a gravidez e o nascimento.

À perda da inocência infantil  corresponde a “sabedoria daqueles que renascem”… como uma jovem donzela, no caso de Chapeuzinho.

João e o Pé de Feijão fala do processo de amadurecimento psíquico; “devemos tomar a iniciativa e correr os riscos envolvidos na condução da vida”; “quando João recebe as sementes mágicas, ele sobe o pé de feijão por iniciativa própria e usa a astúcia, a partir da decepção com a mãe e “do abandono da dependência da satisfação oral, através da confiança no próprio corpo”. O crescimento do feijão é um “poder fálico mágico”; a fase fálica (pé de feijão) substitui a fase oral (vaca). O ogre é o pai edípico; a elaboração da decepção com a mãe e dos ciúmes edipianos do pai é fundamental para o crescimento psíquico do menino; surge a harpa de ouro e posteriormente o abandono das soluções mágicas, cortando o pé de feijão e matando o pai oral devorador (o ogre ciumento).

“A estória ensina, com muitos outros contos de fadas, tais como, “As três Linguagens” na qual o erro dos pais é basicamente a falta de uma resposta apropriada e sensível aos vários problemas envolvidos na maturação pessoal, social e sexual da criança”.

“Branca de Neve” tem, com todos os outros contos, várias versões, girando em torno do ciúme da mãe com a filha, jovem e bela, cuja existência fere o seu narcisismo e desperta o amor dos homens por ela (Branca de Neve).

O nascimento da criança gera problemas para os pais; assim, a criança procura escapar do triângulo passional; os anões são companheiros do período solitário de amadurecimento; a madrasta é narcisista e compete com ela, pelo seu pai (oculto).

A rainha tem ciúmes da beleza da menina, “porque esta beleza seduz os homens”. Os ciúmes da criança são da relação entre os pais, de eles terem os privilégios de adultos, dentro de um complexo de inferioridade infantil; o caçador encarregado de matá-la, e que não o faz, é uma figura paterna, “…maridos dominados pelas esposas não ajudam as crianças”; (pai omisso).

Não é possível um bom relacionamento com a rainha, devido ao seu narcisismo e ao seu bloqueio libidinal no estágio incorporativo oral.

Os anões são trabalhadores e exigem que Branca de Neve se torne também uma trabalhadora; mas são limitados no acesso ao amor.

Outros contos também são analisados pelo autor, dentre eles “Cachinhos de Ouro e os Três Ursos”, “A Bela Adormecida”, “A Gata Borralheira” e a “Bela e a Fera” (“Ciclo do Noivo-Animal dos Contos de Fadas”).

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