A sexualidade infantil e a agressividade (energia da pulsão de morte) que a acompanha desaguam inevitavelmente na formação de um sentimento de culpa do Ego, na mente da criança, por volta dos cinco anos de idade, após aquilo que denominamos como sendo a “dissolução do Complexo de Édipo”

Inevitavelmente, a criança irá investir sua libido (energia da pulsão sexual) e sua agressividade nas relações incestuosas que ela estabelece (sem ter consciência desse “aspecto incestuoso”) com sua mãe, seu pai, seus irmãos e demais possíveis objetos psicossexuais da primeira infância (do nascimento até os cinco, seis anos de idade aproximadamente).

Seu amor próprio e sua autoestima são reféns, nesse período, dos resultados esperados nas relações com seus objetos psicossexuais incestuosos; Freud ressalta o momento da percepção da diferença anatômica entre os sexos enquanto uma experiência infantil crucial para a criança de aproximadamente três anos de idade. Em virtude da natureza mágico-onipotente e sadomasoquista do pensamento primitivo infantil (que também continua prevalecendo na maioria dos povos primitivos), a percepção da diferença anatômica entre o sexo feminino e o sexo masculino é recebida pelos sentimentos da criança, como sendo aquilo o resultado de uma ação de castração, efetuada como uma punição à criança, em virtude dos seus hábitos psíquicos “selvagens”, de produzir fantasias radicalmente agressivas, poderosas, sexualizadas e impregnadas de expectativas mágicas e maniqueístas, conforme atestam os contos de fada, nos quais o sucesso e interesse pelos mesmos se deve à presença de ações canibalescas, maquiavélicas e violentas, perpetradas por adultos, “gigantes”, “bruxas” e por “monstros insensíveis”, capazes de tirar a vida de criança e de adolescentes inocentes, em virtude do seu ódio, ambição, frieza e crueldade desmedidos e sem contrôle.

Essa “fantasia da ocorrência de uma castração na menina” gera profundos sentimentos de decepção, apreensão, medo, horror e afastamento afetivo da menina cm a sua mãe (á qual ela acusa de ter permitido que ela viesse ao mundo com essa “inaceitável falta” (ou “inferioridade de pênis”), e medo, no menino, de que a mesma “castração” possa ser perpetrada nêle próprio.

Portanto, percebemos que o “Complexo de Castração” afeta profundamente o amor próprio e a autoestima das crianças, quebrando suas idealizações onipotentes (“a crença na presença universal do pênis”, por exemplo”) e ativando sentimentos de hostilidade, medo, apreensão e expectativas de destruição e de abandono que coexistem com a ação natural da sexualidade infantil, que determina o investimento libidinal (“investimento da energia da pulsão sexual infantil”) nos primeiros objetos psicossexuais, que são a mãe, o pai e os irmãos, istó é, objetos incestuosos.

Em virtude desse “sentido incestuoso’ (que é desconhecido pela criança pequena) e do investimento também de agressividade (“energia da pulsão destrutiva ou pulsão de morte”) nessas relações com os pais e irmãos, vai se estruturando uma situação conflitante que tende sempre a se tornar insolúvel, em virtude das contradições sentimentais básicas oriundas da necessidade de preservação do amor próprio, da autoestima e da segurança psíquica da criança, em um contexto de agressões psíquicas, investimentos libidinais e de dependência infantil dirigidos aos pais, de forma ambivalente e ambitendente, na relação dual com cada um dêles e na relação triangular envolvendo a criança, a mãe e o pai.

Em virtude dessa verdadeira “arapuca psíquica”, a criança é forçada, em poucos meses, a abandonar esses sentimentos contraditórios, a partir da “aceitação da percepção da castração” e da “demolição do Complexo de Édipo”.

Os estudos psicanalíticos de Freud, Abraham, Ferenczi, Winnicott, e outros autores, mostram que, após a “aceitação da castração” (aceitação dos limites impostos pela realidade) e após a “destruição do Complexo de Édipo, a criança passa a possuir uma nova instância psíquica (o Superego) capaz de controlar, criticar, “exigir performances”, julgar, estabelecer punições, vigiar, humilhar e desprezar o Ego, a partir de uma identificação do Ego da criança com o Superego dos pais), a partir da criação de um Ideal do Ego, ao qual o Ego deve se submeter e sempre buscar a sua realização.

As vivências contraditórias da primeira infância, em especial os sentimentos agressivos dirigidos aos pais (principalmente ao pai), conjugados com a sensação de não cumprimento das exigências do Ideal do Ego, levam à formação de um poderoso sentimento de culpa do Ego que, se não elaborado adequadamente, pode gerar uma “necessidade de castigo” que pode, até mesmo, conduzir o indivíduo ao suicídio como ocorre, com frequência, na fase depressiva do transtorno bipolar (”melancolia”, “fase depressiva da psicose maníaco-depressiva”), por exemplo.

Esse sentimento de culpa e essa necessidade de castigo apresentam componentes inconscientes e componentes conscientes mesclados em diversas proporções, em diferentes transtornos mentais; por exemplo, na melancolia, ambos, sentimento de culpa e necessidade de castigo agem conscientemente; já na “delinquência por um sentimento de culpa”, o mesmo é quase que totalmente inconsciente (Freud, 1917).

Freud define o Superego (e sua capacidade de gerar sentimentos de culpa no Ego) como sendo uma inexorável e inevitável herança do Complexo de Édipo, estruturante de todo o psiquismo da vida adulta do ser humano.

Entretanto, uma permissividade para com “excessos do Superego” está na essência de graves transtornos mentais, tais como a esquizofrenia, a melancolia, a neurose obsessiva e a psicopatia social; os sentimentos de culpa e de vergonha são muito perigosos e precisam ser adequadamente elaborados na análise.

Um criança nunca “pediu para nascer” e sempre é conduzida (por sua sexualidade e agressividade infantis, que lhe foram dadas pela “Mãe Natureza”), ao “funil do Complexo de Édipo”, do qual emerge o sentimento de culpa. Portanto, não é real que a criança “seja culpada de tais ocorrências”, embora ela assim o sinta.

Observa-se também que a culpa é “filha dileta e direta” da onipotência imaginária e idealizada característica da mente infantil; por outro lado ela (a culpa) carrega consigo altas “doses de agressividade”, capazes até mesmo de destruir o indivíduo, embora seja indispensável na coibição das tendencias perversas polimorfas naturais do ser humano.

O tratamento psicanalítico consegue elaborar esses conflitos geradores de culpa a nível inconsciente, restaurando a inocência natural da criança e liberando-a dessas prisões imaginárias, para que ela cresça e contribua para a construção da sua própria personalidade e participe na luta por uma Sociedade mais justa e que se torne realmente capaz de resolver os problemas da vida e da garantir a sobrevivência da espécie humana, o que só pode ser feito a partir do respeito aos indivíduos em formação (as crianças) e da assimilação da busca da compreensão da realidade mental do indivíduo para a aquisição, manutenção e desenvolvimento dessa “ferramenta existente” imprescindível para a sobrevivência de todo nós.

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