O SENTIMENTO DE CULPA, NA VISÃO PSICANALÍTICA

A sexualidade infantil e a agressividade (energia da pulsão de morte) que a acompanha desaguam inevitavelmente na formação de um sentimento de culpa do Ego, na mente da criança, por volta dos cinco anos de idade, após aquilo que denominamos como sendo a “dissolução do Complexo de Édipo”

Inevitavelmente, a criança irá investir sua libido (energia da pulsão sexual) e sua agressividade nas relações incestuosas que ela estabelece (sem ter consciência desse “aspecto incestuoso”) com sua mãe, seu pai, seus irmãos e demais possíveis objetos psicossexuais da primeira infância (do nascimento até os cinco, seis anos de idade aproximadamente).

Seu amor próprio e sua autoestima são reféns, nesse período, dos resultados esperados nas relações com seus objetos psicossexuais incestuosos; Freud ressalta o momento da percepção da diferença anatômica entre os sexos enquanto uma experiência infantil crucial para a criança de aproximadamente três anos de idade. Em virtude da natureza mágico-onipotente e sadomasoquista do pensamento primitivo infantil (que também continua prevalecendo na maioria dos povos primitivos), a percepção da diferença anatômica entre o sexo feminino e o sexo masculino é recebida pelos sentimentos da criança, como sendo aquilo o resultado de uma ação de castração, efetuada como uma punição à criança, em virtude dos seus hábitos psíquicos “selvagens”, de produzir fantasias radicalmente agressivas, poderosas, sexualizadas e impregnadas de expectativas mágicas e maniqueístas, conforme atestam os contos de fada, nos quais o sucesso e interesse pelos mesmos se deve à presença de ações canibalescas, maquiavélicas e violentas, perpetradas por adultos, “gigantes”, “bruxas” e por “monstros insensíveis”, capazes de tirar a vida de criança e de adolescentes inocentes, em virtude do seu ódio, ambição, frieza e crueldade desmedidos e sem contrôle.

Essa “fantasia da ocorrência de uma castração na menina” gera profundos sentimentos de decepção, apreensão, medo, horror e afastamento afetivo da menina cm a sua mãe (á qual ela acusa de ter permitido que ela viesse ao mundo com essa “inaceitável falta” (ou “inferioridade de pênis”), e medo, no menino, de que a mesma “castração” possa ser perpetrada nêle próprio.

Portanto, percebemos que o “Complexo de Castração” afeta profundamente o amor próprio e a autoestima das crianças, quebrando suas idealizações onipotentes (“a crença na presença universal do pênis”, por exemplo”) e ativando sentimentos de hostilidade, medo, apreensão e expectativas de destruição e de abandono que coexistem com a ação natural da sexualidade infantil, que determina o investimento libidinal (“investimento da energia da pulsão sexual infantil”) nos primeiros objetos psicossexuais, que são a mãe, o pai e os irmãos, istó é, objetos incestuosos.

Em virtude desse “sentido incestuoso’ (que é desconhecido pela criança pequena) e do investimento também de agressividade (“energia da pulsão destrutiva ou pulsão de morte”) nessas relações com os pais e irmãos, vai se estruturando uma situação conflitante que tende sempre a se tornar insolúvel, em virtude das contradições sentimentais básicas oriundas da necessidade de preservação do amor próprio, da autoestima e da segurança psíquica da criança, em um contexto de agressões psíquicas, investimentos libidinais e de dependência infantil dirigidos aos pais, de forma ambivalente e ambitendente, na relação dual com cada um dêles e na relação triangular envolvendo a criança, a mãe e o pai.

Em virtude dessa verdadeira “arapuca psíquica”, a criança é forçada, em poucos meses, a abandonar esses sentimentos contraditórios, a partir da “aceitação da percepção da castração” e da “demolição do Complexo de Édipo”.

Os estudos psicanalíticos de Freud, Abraham, Ferenczi, Winnicott, e outros autores, mostram que, após a “aceitação da castração” (aceitação dos limites impostos pela realidade) e após a “destruição do Complexo de Édipo, a criança passa a possuir uma nova instância psíquica (o Superego) capaz de controlar, criticar, “exigir performances”, julgar, estabelecer punições, vigiar, humilhar e desprezar o Ego, a partir de uma identificação do Ego da criança com o Superego dos pais), a partir da criação de um Ideal do Ego, ao qual o Ego deve se submeter e sempre buscar a sua realização.

As vivências contraditórias da primeira infância, em especial os sentimentos agressivos dirigidos aos pais (principalmente ao pai), conjugados com a sensação de não cumprimento das exigências do Ideal do Ego, levam à formação de um poderoso sentimento de culpa do Ego que, se não elaborado adequadamente, pode gerar uma “necessidade de castigo” que pode, até mesmo, conduzir o indivíduo ao suicídio como ocorre, com frequência, na fase depressiva do transtorno bipolar (”melancolia”, “fase depressiva da psicose maníaco-depressiva”), por exemplo.

Esse sentimento de culpa e essa necessidade de castigo apresentam componentes inconscientes e componentes conscientes mesclados em diversas proporções, em diferentes transtornos mentais; por exemplo, na melancolia, ambos, sentimento de culpa e necessidade de castigo agem conscientemente; já na “delinquência por um sentimento de culpa”, o mesmo é quase que totalmente inconsciente (Freud, 1917).

Freud define o Superego (e sua capacidade de gerar sentimentos de culpa no Ego) como sendo uma inexorável e inevitável herança do Complexo de Édipo, estruturante de todo o psiquismo da vida adulta do ser humano.

Entretanto, uma permissividade para com “excessos do Superego” está na essência de graves transtornos mentais, tais como a esquizofrenia, a melancolia, a neurose obsessiva e a psicopatia social; os sentimentos de culpa e de vergonha são muito perigosos e precisam ser adequadamente elaborados na análise.

Um criança nunca “pediu para nascer” e sempre é conduzida (por sua sexualidade e agressividade infantis, que lhe foram dadas pela “Mãe Natureza”), ao “funil do Complexo de Édipo”, do qual emerge o sentimento de culpa. Portanto, não é real que a criança “seja culpada de tais ocorrências”, embora ela assim o sinta.

Observa-se também que a culpa é “filha dileta e direta” da onipotência imaginária e idealizada característica da mente infantil; por outro lado ela (a culpa) carrega consigo altas “doses de agressividade”, capazes até mesmo de destruir o indivíduo, embora seja indispensável na coibição das tendencias perversas polimorfas naturais do ser humano.

O tratamento psicanalítico consegue elaborar esses conflitos geradores de culpa a nível inconsciente, restaurando a inocência natural da criança e liberando-a dessas prisões imaginárias, para que ela cresça e contribua para a construção da sua própria personalidade e participe na luta por uma Sociedade mais justa e que se torne realmente capaz de resolver os problemas da vida e da garantir a sobrevivência da espécie humana, o que só pode ser feito a partir do respeito aos indivíduos em formação (as crianças) e da assimilação da busca da compreensão da realidade mental do indivíduo para a aquisição, manutenção e desenvolvimento dessa “ferramenta existente” imprescindível para a sobrevivência de todo nós.

EXEMPLO DE AULA DO CURSO PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO “O SELF”

5.1) Este conceito foi desenvolvido por D.W.WINNICOTT  e pode ser traduzido por “si mesmo”. Opõe-se ao conceito de “FALSO SELF”; estes conceitos enfatizam dois modos de educação emocional da criança, a qual pode abordar o mundo de uma maneira espontânea, criativa, livre ou reativa, submissa e não espontânea.

O “self” traz em si a verdadeira criança, com seu estilo e forma próprias de se posicionar diante dos seus problemas e situações existenciais.

0 “falso self” corresponde à máscara social, à falta de espontaneidade e ao excesso de adaptação e obediência sociais. Quando lemos nos jornais a respeito de “Yupies e Hippies”, da menina japonesa que se suicidou aos 11 anos, “porque não passou nos exames do ginásio”, entendemos melhor estes conceitos.

O “self” é confiável, criativo, forte e integrado. O “falso-self” está relacionando com os “transtornos mentais de essência masoquista”.

Segundo WINNICOTT, o verdadeiro aprendizado pressupõe a predominância do “self”.

5.2)O “self” pressupões conteúdos pré-conscientes, conscientes, inconscientes e afetivos integrados de um modo experimental, por iniciativa própria, essencialmente. Resulta em um EU, com E maiúsculo. O eu pode ser também diminuído e é o conjunto de identificações com as quais o sujeito se constitui, podendo conter reações inadequadas ao bem estar psíquico.

5.3) Freud nos mostra a existência de um desenvolvimento da libido, do ego e do superego.

Portanto, a personalidade sadia é uma conquista a partir do desenvolvimento e amadurecimento psíquicos, sendo os transtornos mentais decorrências de paradas e/ ou regressões deste processo a modos infantis de “estar no mundo”.

Segundo Winnicott este desenvolvimento pressupõe a liberdade de ocupação do espaço transicional.

Portanto existem regras, condições e tarefas a serem realizadas, cuja burla, desconhecimento ou não cumprimento, resultam em transtornos mentais.

EXEMPLO DE UMA LEITURA SUGERIDA PARA O CURSO UMA ABORDAGEM PSICANALÍTICA DA CID-10 “A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS”, de Bruno Bettelheim (1979)

Este livro tem como título original “The uses of enchantment: The meaning and importance of fairy tales”; é constituído por 2 partes, “UM PUNHADO DE MÁGICA” e “NA TERRA DAS FADAS”, onde o conto de fadas é comparado com a fábula e o mito.

Os aspectos psicanalíticos da fantasia, do principio do prazer, do principio da realidade, do conflito edípico, da recuperação, da unificação e da integração pulsional são abordados, com a ajuda de contos tais como “O pescador e o gênio”, “Os três porquinhos”, “A Rainha Abelha”, “Simbad”, “As Mil e Uma Noites”, “A Guardadora de Gansos” e outros, na primeira parte do livro.

A segunda parte consiste na análise dos contos de fadas clássicos: “João e Maria”, “Chapeuzinho Vermelho”, “João e o Pé de Feijão”, “Branca de Neve”, “Cachinhos de Ouro e Os Três Ursos”, “A Bela Adormecida”  e “A Gata Borralheira”, incluindo uma análise do mito de Édipo, em “Branca de Neve”, e observação do “Ciclo do Noivo-animal”,nos Contos de fadas.

Na Introdução, o autor enfatiza ser tarefa dos adultos “…ajudar a criança a encontrar significado na vida”, a partir da sua “experiência como educador e terapeuta de crianças gravemente perturbadas”.

Os contos de fadas são “explorações espirituais” nas quais são mostrados aspectos como a coragem e a esperança para abordar problemas reais da vida humana, que exigem traços de caráter fortes e definidos para a sua resolução; também o “caldeirão de emoções edipiano” é abordado e soluções são oferecidas, nos contos de fadas. A força do amor, sempre vencedora, sinaliza o caminho da coragem e da devoção, nas relações de amor e no casamento; “o conto de fadas hindu é terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução do seu conflito interior, “externalizado”, no conto.

As sagas nórdicas se referem a mitos e contos; os conflitos internos são expressos nos contos de fadas, bem como nos mitos. Mas, o conto de fadas é caseiro, simples, sempre “termina bem”, “é um presente de amor”, segundo Lewis Carrol.

Os “gigantes ameaçadores” somos nós, adultos; mas a astúcia pode vencer o gigante…

“O Pescador e o Gênio” é um conto das Noites Árabes; contos semelhantes, como “O Gigante na Garrafa”, por exemplo, existem em diversas culturas; a astúcia do pescador, desafiando o gigante que ameaçava matá-lo e voltar à garrafa, o salva da morte; sentimentos ruins, “engarrafados”, podem nos destruir…

“Os três porquinhos” nos ensinam a respeito dos perigos da preguiça, enquanto “um planejamento e previsão inteligentes, combinados a um trabalho árduo … (coordenado) pelo maior e mais velho, …nos fará vitoriosos, até mesmo sobre…o lobo”; a evolução e o progresso da Humanidade estão simbolizados pelas casas de choça àmadeiraàtijolosà e pela evolução id à superegoàego, no controle das decisões e ações, isto é, do principio do prazer ao principio da realidade, dominando e impedindo a vitória do lobo feroz e destrutivo… que representa os impulsos destrutivos inconscientes, em nós.

Segundo Piaget, o pensamento da criança permanece animista até a puberdade, “o sol está vivo, o vento fala, os animais conversam, as pedras estão vivas, os objetos falam”, dentro da “necessidade infantil da magia”. As coisas “mortas” podem estar vivas; “quem fui eu, quem sou eu, quem serei eu:”, se pergunta, a criança; “de onde vim, qual o sentido da vida”: …Existem poderes benevolentes:

A fantasia da “madrasta malvada” se relaciona com o “romance familiar”, descrito por Freud. São devaneios, fantasias, de que os pais não são verdadeiros, de que se é filho(a) de alguém importante, ou “um dos pais é falso”; a mãe morta e a madrasta malvada viva, dos contos de fadas, é útil para a criança, por lhe dar a permissão de sentir raiva da figura materna, preservando a “mãe boa”.

O “caos edipiano” pode ser organizado com a ajuda dos contos de fadas, com seus “polos opostos definidos e unidimensionais” (“…um animal (por exemplo) ou é totalmente devorador ou totalmente prestativo) que permitem a projeção da ambivalência em figuras separadas e opostas; os animais ferozes representam o ID, os animais sábios prestativos também representam o ID servindo ao ego; alguns pássaros brancos representam o superego.

As feridas narcísicas provocadas pelas traições femininas são tema das “Mil e Uma Noites”, se referindo, na verdade, a problemas narcísicos vinculados ao Complexo de Édipo.

O número três pode corresponder a id, ego e superego, bem como a “criança, mãe e pai”; conflitos edipianos são externalizados e resolvidos em “cavaleiro da armadura brilhante que salva a donzela em apuros do dragão destrutivo (menino à mãe à pai (dragão); (bruxa, princesa, príncipe), (mãe, menina, pai) (Rapunzel, Cinderela e Branca de Neve).

“João e Maria” conta a história de pais pobres, preocupados com o futuro dos filhos.

João e Maria fantasiam que os pais querem abandoná-los; eles são abandonados na floresta; João consegue encontrar o caminho de volta, da primeira vez; não resolve o problema e a mãe se torna mais astuta, nos planos de livrar-se das crianças; na segunda vez, João joga no chão migalhas de pão e os pássaros comem as migalhas; êles, agora, entram em franca regressão oral e a casa de biscoito de gengibre simboliza isto; devorar os biscoitos, destruindo a casa… é a linguagem das imagens, adequada para as crianças; a bruxa é a personificação dos aspectos destrutivos da oralidade e quer comer, também, …as crianças; elas evoluem, a partir da elaboração da voracidade e da dependência; são os pássaros que orientam as crianças; êles as orientam para enfrentar os perigos e as ajudaram; o engodo da bruxa (mãe) corresponde ao desmame e outras frustrações; se separam, ao atravessar o rio, e Maria demonstra maturidade; os tesouros que levam para casa são a independência de pensamento e de ação, advindos da autoconfiança; as forças inimigas são femininas (madrasta e bruxa) e Maria é a salvadora;  o resgate das relações boas com os pais é fundamental para as crianças.

Os “inimigos” vencidos foram: as ansiedades orais, o pensamento mágico, os conflitos edipianos e a dependência dos pais, que foram elaborados através da sublimação, da ação inteligente e da cooperação entre irmãos e com os pais, fornecendo meios para dominar os perigos do mundo, a partir do domínio sobre as figuras persecutórias da imaginação (bruxas, gigantes e outras).

“Chapeuzinho Vermelho” é uma menina “inocente”; existem várias versões e na de Perrault, a vitória é do lobo, enquanto que, na dos irmãos Grimm, a avó e a menina voltam a viver e o lobo é castigado.

Neste conto, a menina, em idade escolar, com as questões edipianas já atuantes inconscientemente, pode se expor a seduções; o lobo é sedutor; Chapeuzinho deixa o lar voluntariamente, não teme o mundo externo, que “é belo”; há um conflito entre o principio da realidade e o principio do prazer; Chapeuzinho se distrai colhendo flores em excesso, negligenciando o tempo e o caminho corretos; as dúvidas auditivas, visuais, táteis e gustativas mostram sua insegurança em relação àquilo que ele fantasia e àquilo que ela percebe; a mãe e a avó são impotentes e não há bruxas; o macho é dividido entre o sedutor perigoso (lobo) e o caçador forte responsável, firme e salvador (o Id e o ego).

Confiar em todos é perigoso; a ingenuidade traz em si algo que torna o lobo atraente…; ao ceder às tentações do lobo, dá a ele a oportunidade de devorar a avó; ela é castigada, sendo engolida também; a avó é infantil e segue o principio do prazer; a capa vermelha, atraente para o lobo, foi dada pela avó…; ela é pequena demais para lidar com aquilo que atrai, com seu chapeuzinho…vermelho; ela precisa se identificar e aprender com a mãe e com a avó.

Na puberdade as emoções edipianas reaparecem, e na história, as traições à mãe e à avó mostram a vulnerabilidade de Chapeuzinho à sedução do lobo…

O caçador não permite que suas emoções o dominem e não atira no lobo; sua razão o faz optar por retirar, primeiro, a avó e a menina da sua barriga; assim, ele salva os bons e castiga o malvado; a extração delas, do estômago, lembra a gravidez e o nascimento.

À perda da inocência infantil  corresponde a “sabedoria daqueles que renascem”… como uma jovem donzela, no caso de Chapeuzinho.

João e o Pé de Feijão fala do processo de amadurecimento psíquico; “devemos tomar a iniciativa e correr os riscos envolvidos na condução da vida”; “quando João recebe as sementes mágicas, ele sobe o pé de feijão por iniciativa própria e usa a astúcia, a partir da decepção com a mãe e “do abandono da dependência da satisfação oral, através da confiança no próprio corpo”. O crescimento do feijão é um “poder fálico mágico”; a fase fálica (pé de feijão) substitui a fase oral (vaca). O ogre é o pai edípico; a elaboração da decepção com a mãe e dos ciúmes edipianos do pai é fundamental para o crescimento psíquico do menino; surge a harpa de ouro e posteriormente o abandono das soluções mágicas, cortando o pé de feijão e matando o pai oral devorador (o ogre ciumento).

“A estória ensina, com muitos outros contos de fadas, tais como, “As três Linguagens” na qual o erro dos pais é basicamente a falta de uma resposta apropriada e sensível aos vários problemas envolvidos na maturação pessoal, social e sexual da criança”.

“Branca de Neve” tem, com todos os outros contos, várias versões, girando em torno do ciúme da mãe com a filha, jovem e bela, cuja existência fere o seu narcisismo e desperta o amor dos homens por ela (Branca de Neve).

O nascimento da criança gera problemas para os pais; assim, a criança procura escapar do triângulo passional; os anões são companheiros do período solitário de amadurecimento; a madrasta é narcisista e compete com ela, pelo seu pai (oculto).

A rainha tem ciúmes da beleza da menina, “porque esta beleza seduz os homens”. Os ciúmes da criança são da relação entre os pais, de eles terem os privilégios de adultos, dentro de um complexo de inferioridade infantil; o caçador encarregado de matá-la, e que não o faz, é uma figura paterna, “…maridos dominados pelas esposas não ajudam as crianças”; (pai omisso).

Não é possível um bom relacionamento com a rainha, devido ao seu narcisismo e ao seu bloqueio libidinal no estágio incorporativo oral.

Os anões são trabalhadores e exigem que Branca de Neve se torne também uma trabalhadora; mas são limitados no acesso ao amor.

Outros contos também são analisados pelo autor, dentre eles “Cachinhos de Ouro e os Três Ursos”, “A Bela Adormecida”, “A Gata Borralheira” e a “Bela e a Fera” (“Ciclo do Noivo-Animal dos Contos de Fadas”).

EXEMPLO DE UMA AULA DO CURSO UMA ABORDAGEM PSICANALÍTICA DA CID-10 TEORIA DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE: FIXAÇÃO E REGRESSÃO

  1. Psicanálise

Em 1893, Breuer e Freud comunicaram ao mundo a descoberta de que complexos de idéias inconscientes, carregadas de afeto, são decisivas na formação e manutenção dos sintomas histéricos.

Em 1894,1895 e 1896 Freud estendeu esta abrangência à formação dos sintomas da neurose obsessiva e da esquizofrenia paranóide.

Em 1900, os sonhos foram acrescentados a este conjunto, em 1901 as parapraxias e em 1905 os chistes também foram explicados a partir de complexos ideativos inconscientes carregados de afeto.

A partir de 1911, as produções culturais humanas passaram também a fazer parte deste conjunto, incluindo as produções literárias, a civilização, a mitologia, o folclore, as cantigas de ninar e todas as produções artísticas humanas, bem como as estruturas sociais e as religiões (1917, 1927,1930).

A causa da inconscientização destes complexos ideativos é a ação de defesas psíquicas aplicadas a eles, impedindo a sua ab-reação através da psicomotricidade e da expressão verbal. Tal proibição de acesso à consciência, à psicomotricidade e à expressão verbal se deve à natureza sexual e agressiva destas ideias articuladas (“complexos”).

Em 1905 ficou explicitada a natureza sexual inata (sexualidade infantil) destes complexos e em 1920 a presença da agressividade (energia da pulsão de morte) foi também reconhecida como inata e também inerente ao investimento pulsional nestas ideias inconscientizadas pela ação defensiva inconsciente do ego.

Em 1914 foi reconhecido o investimento libidinal no ego (libido narcísica) e em 1924 foi reconhecido o investimento de pulsão de morte (agressiva ou destrutiva) no ego (masoquismo primário e masoquismo secundário).

Já em 1895 foi descrito um aparelho psíquico portador de registros mnêmicos motivados, inconscientizados a partir da ação de defesas primárias do ego.

Em 1900, este aparelho psíquico estava dividido em uma região inconsciente (sem possibilidade de acesso espontâneo à consciência) e outra região pré-consciente (com acesso espontâneo possível à consciência). A consciência está ligada ao sistema perceptual e colhe informações dos mundos externo e interno.

Em 1923, este aparelho é descrito como dividido em ID, EGO E SUPEREGO, três instâncias psíquicas intercomunicantes que disputam o poder de acesso à psicomotricidade e à expressão verbal.

O ID é completamente inconsciente.

O EGO está com o controle da psicomotricidade e da expressão verbal e tem partes também inconscientes (as defesas, por exemplo) e pode perder este controle para o ID e/ou SUPEREGO, caso estas defesas falhem.

O SUPEREGO surge a partir de um núcleo de ideal do ego, sendo reservatório de grande quantidade de pulsão destrutiva que é responsável pela aplicação de punições e da desagregação das estruturas do ego.

O acesso à realidade, à lucidez e à capacidade de modificar construtivamente a realidade dependem da capacidade do ego em manter o controle da consciência – percepção – psicomotricidade – expressão verbal, através da ação das suas defesas inconscientes aplicadas a impulsos do id e do seu amor próprio (reforçado pelo sucesso nas relações de objeto) se impor às cobranças do superego, baseadas no seu núcleo ideal.

Esta comparação entre o ideal que o ego deveria atingir e a realidade do que o ego fez (e está fazendo) é a base das cobranças do superego ao ego.

Esta configuração básica da natureza humana, descoberta pela psicanálise, dá uma explicação verossímil para as atividades humanas, explicando a estrutura dos transtornos mentais e as motivações humanas mais influentes durante a vida.

Podemos então falar de uma sexualidade/agressividade inata que precisa ser organizada e harmonizada ao longo do desenvolvimento da personalidade.
Teoria do desenvolvimento da personalidade

A partir de um contexto com raízes míticas e ainda incognoscíveis, o ser humano nasce com um aparato psíquico capaz de se desenvolver em referencia a este contexto básico. Tal contexto é o de uma luta entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, inatas e inerentes à estrutura psíquica original.

A energia destas pulsões (libido e agressividade) se investe no aparato préexistente capaz de registrar as experiências psíquicas a partir da percepção dos objetos e fenômenos naturais. Temos então uma estrutura básica de memória, percepção, consciência, motricidade, animadas pelas pulsões.

A pulsão de vida tem o “vetor” sempre apontado no sentido da ligação, agregação, unificação, integração e perpetuação de estruturas psíquicas cada vez mais fortes e adaptadas à realidade circundante.

A pulsão de morte tem o “vetor” sempre apontado para a fragmentação, destruição, desagregação, desunião, desintegração e retorno às formas inorgânicas de existência.

Os dois “Titãs”, Eros e Tanatus, investem suas respectivas energias (libido e agressividade) nas estruturas de memória do (potencial) aparelho psíquico.

Podemos atribuir a Eros as ações que visam à sobrevivência do individuo (pulsões de autoconservação) e à sua perpetuação (pulsão sexual), enquanto a autodestruição e a destruição das relações de objeto, com ou sem lesão ao mesmo, deve ser atribuída a ação de Tanatus.

As primeiras descrições do desenvolvimento da personalidade se referem à libido (desenvolvimento da libido) e foram efetuadas por Freud (1905, 1915,1924) e Abraham (1922).

Entretanto, na própria nomenclatura das organizações libidinais, podemos perceber claramente a presença de Tanatus. Se não, vejamos:

– Fase Oral Sádica

– Fase Oral Canibalesca

– Fase Anal Sádica

– Fase Fálica

Isto é, Freud e Abraham perceberam claramente um masoquismo – sadismo primitivo, oriundo do investimento da pulsão de morte (Freud, 1920) no ego (Freud, 1924). Esta fusão entre libido e agressividade aparece desde o inicio e Melanie Klein se dedicou a rastrear os destinos da pulsão de morte, relatando, essencialmente, o seguinte:

  • Investimento inicial da pulsão de morte no ego (masoquismo primário).
  • Derivação da pulsão de morte para os objetos (seio, mãe)- sadismo, posição “esquizo-paranóide”.
  • Retorno da pulsão de morte ao ego (masoquismo secundário, “posição depressiva”).

Assim, a partir da interação entre o aparato psíquico básico (memória, percepção, consciência, ação) e a realidade circundante (mundo externo, mundo pulsional interno), o desenvolvimento da personalidade pode, ou não, se processar.

Inicialmente a dependência da mãe (objeto) é absoluta. Não há discernimento entre alucinações (oriundas dos registros, atingindo a consciência) e percepções. É inevitável que a pulsão de morte seja investida nos objetos (seio), para que o potencial de discernimento entre a alucinação e percepção seja desenvolvido pelo ego, através do teste de realidade, aprimorado em um principio de realidade.

Para tal, é necessária a contenção da energização dos registros mnêmicos, potencialmente alucinatórios, mediante a ação da defesa primaria do ego, capaz de retirar o investimento destes registros, impedindo, assim, a sua conscientização.

As defesas primitivas não são capazes de manter os registros mnêmicos energizados no Id; isto resulta na incapacidade do ego em comparar os registros mnêmicos com as novas percepções, o que resulta em sintomas psicóticos, por falta do predomínio do teste e do principio da realidade. O processo primário alucinatório original pode então assumir o controle da psicomotricidade também em vigília; tal fenômeno alucinatório ocorre varias vezes, à noite, nos sonhos, quando o acesso à psicomotricidade esta vedado pelo estado de sono.

Em síntese, podemos falar dos desenvolvimentos:

  • Da libido (energia da pulsão sexual)
  • Da agressividade (energia da pulsão destrutiva)
  • Das defesas inconscientes do ego e do ego
  • Do superego
  • Do aparelho psíquico
  • Da personalidade
  1. Fixação

Este conceito se fundamenta na existência da memória, isto é, um lugar do aparelho psíquico onde as percepções das vivencias psíquicas são registradas.

Assim, as experiências psíquicas são fixadas (registradas) na memória; as experiências repetitivas de dor e satisfação estabelecem facilitações, por onde a energia pulsional transita , buscando a descarga através da psicomotricidade e da expressão verbal. Deste modo, as coisas importantes na vida psíquica (nutrição, sexualidade, agressividade) se repetem a partir do encontro de modos eficazes de obtenção das descargas pulsionais específicas.  Isto estabelece os pontos de fixação da libido.

Em linhas gerais, temos fixações orais, anais e fálicas, correspondentes às fases do desenvolvimento libidinal. Os termos “organização oral da libido”, “organização anal da libido” e “organização genital infantil da libido” (“organização fálica da libido”) e “organização genital da libido” explicitam melhor o fato de o fenômeno ser constituído por modos de organização pulsional que tem sucesso na obtenção das necessárias e inevitáveis descargas pulsionais.

Na verdade, existem inúmeros pontos de fixação e subdivisões múltiplas das fases em subfases, sempre havendo a superposição de um período subsequente ao período anterior, isto é, por exemplo, o modo oral de organização da libido não desaparece nem é substituído pelo modo anal; o que ocorre é uma subposição do modo oral (mais antigo) ao modo anal (mais recente).

  • Regressão

Este fenômeno, que é também um dos mecanismos de defesa utilizados pelo ego diante das exigências e dificuldades da vida, denota a dinâmica e a reversibilidade das aquisições psíquicas. Isto é, o desenvolvimento da libido tem uma dinâmica relativa e bipolar, sendo passível de regressões. Estas regressões são causadas por frustrações e/ou deficiente trabalho psíquico de elaboração das necessidades psíquicas das fases anteriores.

Diante dos empecilhos e novas vivências ameaçadoras (perdas, aumento das exigências, decepções amorosas, mudanças sociais), a libido pode regredir aos antigos pontos de fixação infantis, pré-genitais.

Na serie neurótica, temos as seguintes principais regressões e seus resultados correspondentes:

  • Regressão à fase fálica- histeria
  • Regressão à fase anal sádica retentiva- neurose obsessiva
  • Regressão a fase oral canibalesca – esquizofrenia paranóide
  • Regressão à fase anal – expulsiva – melancolia
  • Regressão a fase oral de sucção – esquizofrenia hebefrênica

É digno de nota que as doenças psicossomáticas (onde os tecidos do corpo são os objetos lesados pela pulsão não investida em representações psíquicas (“vorstellung”), sejam criadas também em pontos de fixação, arcaicos, orais.

Na serie de regressões a partir da recusa da castração (“serie perversa”), o ponto de fixação da perversão do caráter (psicopatia) é oral canibalesco, o da pedofilia é anal-sádico e o do fetichismo é fálico.

Portanto, é a regressão que possibilita a existência de transtornos mentais e ela está presente em maior ou menor grau, em todos eles (“infantilismo psíquico”).

PULSÃO DE VIDA                         PULSÃO DE MORTE

  • Desfusão original das pulsões
  • Trajeto da pulsão de morte – Investimento no ego imaturo (masoquismo primário, 1924)  investimento no objeto parcial (“seio mau”)   objeto total (posição depressiva). Posição esquizoparanóide anterior.  (Klein)
  • Fase da ilusão. Fase da desilusão. Objetos transicionais. Espaço transicional. (D.W.Winnicot)
  • Portanto, o ego imaturo não suporta o investimento da pulsão de morte, transferindo-a para relações ( precoces ) de objeto. Assim, os relacionamentos interpessoais são, originalmente, um lugar psíquico para a descarga da pulsão de morte. Tal situação persiste, na vida adulta, nos casos das personalidades antissociais (F60.2 – CID10).
  • No bebê, esta é a posição esquizoparanóide, onde predomina o mecanismo de defesa responsável pela formação de sintomas psicóticos (IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA).
  • Simultaneamente, a percepção da realidade vai se desenvolvendo no ego e o bebê, aos quatro meses de idade, já é capaz de reconhecer a mãe como objeto total e perceber a impossibilidade de continuar derivando a pulsão de morte para a relação com ela (que deve ser capaz de “sobreviver a estes ataques”) (Klein/Winnicot)(“mãe suficientemente boa”) .

Esta situação inicial corresponde à fase oral do desenvolvimento da pulsão sexual (desenvolvimento da energia da pulsão sexual ou libido), descrita por Freud e  Abraham.

Este autor divide a fase oral  em fase oral de sucção e fase oral canibalesca. As psicoses esquizofrênicas são possíveis através de uma regressão a este modo inicial (arcaico) do desenvolvimento psíquico, onde ocorre o uso predominante da identificação projetiva como mecanismo de defesa aplicado à ação da pulsão parcial oral, com seus componentes libidirais e agressivos .

Pela teoria do desenvolvimento da libido:

  • Existe uma Sexualidade Infantil, sustentada por uma pulsão de natureza autoerótica, produzida em todas as células do corpo, com apoio nas zonas corporais que se relacionam com o meio ambiente (boca , anus, uretra) e que exerce uma pressão psíquica no sentido de encontrar a satisfação, de maneira isolada e autônoma; todo o corpo é erógeno.
  • Temos, portanto, as organizações oral, anal e fálica (uretral) (genital infantil), que precedem a organização genital do adulto sadio.
  • Todos os transtornos psíquicos são decorrentes de regressões da libido aos pontos de fixação nas organizações pré-genitais infantis. Assim, as psicoses esquizofrênicas são possíveis a partir de uma regressão a fase oral de sucção. A psicose maníaco-depressiva é possível a partir de uma regressão à fase anal expulsiva, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) (F42) (CID 10) implica em uma regressão ao modo de funcionamento psíquico da fase anal retentiva; a histeria implica em uma regressão à fase fálica; todas as perversões sexuais e do caráter são regressões a estas fases do desenvolvimento libidinal, mas com predominância da defesa psíquica da recusa da castração (não aceitação dos necessários limites impostos pela realidade). As neuroses e psicoses são “negativos” destas perversões, produzidos pela ação de mecanismos de defesa que restringem esta ação perversa original ao inconsciente individual.
  • A atividade pulsional original é de natureza perversa polimorfa autoerótica, isto é, buscando a satisfação na sua própria fonte. As pulsões de vida e de morte estão a principio separadas, cabendo ao desenvolvimento psíquico da libido a tarefa de fundi-las, sob predomínio da pulsão de vida, assegurando a possibilidade de reprodução biológica da espécie e da criação psíquica de novos seres humanos, a partir da capacitação dos indivíduos para o exercício das funções psíquicas da maternagem e da ação paterna, o que só se torna possível a partir da conquista do amor próprio (narcisismo), elaboração da castração e elaboração do complexo de Édipo, proporcionados pela ação psíquica da pulsão de vida, “Eros”.
  • As provas da existência, importância e ação decisiva do Inconsciente (ID) na vida do ser humano são oriundas do tratamento dos transtornos mentais pela sugestão, hipnose, método catártico e psicanálise, (mediante a interpretação dos sonhos, análise dos atos falhos (parapraxias), análise dos chistes, analise antropológica social, analise das produções culturais, análise de obras literárias, analise dos mitos, lendas e contos de fadas); são encontradas sempre as mesmas motivações inconscientes oriundas da ação da sexualidade infantil estruturada através do narcisismo, do complexo de castração e do complexo de Édipo, na gênese destes diferentes fenômenos psíquicos.

Observa-se, portanto, um desenvolvimento da libido, um desenvolvimento das  defesas psíquicas, um desenvolvimento do ego e um desenvolvimento do superego que, juntos,  promovem a contenção necessária da ação interna e externa (relações interpessoais, sociais) da pulsão de morte, proporcionando o desenvolvimento da personalidade,  com a criação de seres  humanos sadios, livres e com inteligência emocional suficiente para se tornarem boas mães, bons pais , bons amigos e trabalharem individualmente e em conjunto para a preservação da qualidade de vida, contribuindo para a sobrevivência da espécie.

EXEMPLO DE UMA LEITURA SUGERIDA PARA O CURSO PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO AULA 10 Resumo de Livro “Limite e Espaço”, de Madelene Davis e David Wallbridge, 1981. (Uma introdução à obra de D.W.Winnicott)

 “A vida é difícil, mas vale a pena ser vivida”.

Winnicott não aceitou a explicação freudiana, da agressividade como decorrente da ação psíquica de uma pulsão de morte.

A teoria de Winnicott é desenvolvida a partir de Freud, de Klein, dos psicólogos do ego, dos filósofos e dos poetas da nossa civilização.

Os pressupostos básicos da sua teoria:

1) O conceito do eu

2) A realidade interna

3) O fato da dependência

4) O funcionamento psíquico precoce no sentido da integração,personalização,a partir das relações objetais primitivas e da onipotência

5) A imposição e o trauma gerando a auto-defesa, o falso eu,a expectativa de perseguição

6) O fato da existência da área da ilusão, com os objetos e fenômenos transicionais.

7) A importância decisiva do brincar(“to play”), do espaço potencial, do uso do objeto

8) A moralidade inata e a capacidade para preocupação e reparação

9) A importância decisiva das provisões ambientais (a mãe, o pai, a adaptação ao meio)

10) O equilíbrio entre limite e espaço (conteúdo/forma;segurança/risco;individuo/grupo social; continuidade/descontinuidade).

O livro contém 131 citações de D.W.Winnicontt e citações de Bower (2) Brasel, Darc,Fairbairn, Isaacs, Khan, Klaus, Liedloff, MacFarlane, Piaget,Rose, Schaffer e Wilson.

A realidade psíquica interna consiste em um processo de desenvolvimento da personalidade a partir das fantasias do bebê vinculadas ao funcionamento do seu corpo e da percepção da separação entre o corpo (eu) e o “não eu”.

O bebê é parte de uma relação com “alguém” (mãe); a maternidade suficientemente boa é fundamental para impedir a permanência do desamparo original; desamparo→ dependência absoluta→ dependência relativa→ interdependência é o caminho do desenvolvimento da personalidade.

A não integração possibilita o relaxamento, a inconsequência e o desejo de estar só, do adulto.

A personalização (“psique residindo na soma”) é a “trama psicossomática”, que é uma realização, a qual pode não ser obtida (nas psicoses, no autismo).

A imposição real do ambiente contradita o impulso natural do bebê, gerando traumas; ameaças de aniquilamento,agonias primitivas (“ansiedades impensáveis”) (despedaçar-se, cair para sempre,não ter relação com o corpo, não ter orientação, isolamento completo por falta de meios de comunicação); são estes os pavores primitivos.

A “reação desorganizadora do continuar-a-ser” leva à psicopatologia; o autismo, a esquizofrenia infantil, a esquizofrenia latente e a personalidade esquizoide são consequências do fracasso da adaptação ao ambiente na fase de dependência absoluta (“auto-defesa”).

Portanto, a sanidade é decorrência de um ambiente bom no inicio da vida; o “falso-self” (falso-eu) é decorrência do fracasso da apresentação-de-objetos, na fase de dependência absoluta.

A permissão da ilusão da onipotência é necessária à criação do objeto transicional (“primeira possessão não-eu”); o paradoxo “objeto eu/não-eu”não é para ser resolvido, pois é preciso preservar o espaço transicional (“área de experimentação”). Portanto,o desenvolvimento e manutenção da capacidade de brincar é fundamental para o ser humano, tal como descreve também, Piaget, no seu “jogo simbólico”.

No espaço potencial, onde a criança brinca, é que ocorre o aprendizado de formas de lidar com a frustração, que dependem da permanência (sobrevivência) do objeto.

A moralidade, para Winnicott,  é inata, levando a uma capacidade de preocupação.

A tendência anti-social é uma decorrência de um fracasso (privação) ambiental na fase de dependência relativa ( roubo, comportamento agressivo, atos destrutivos, crueldade compusiva, perversões).

O conteúdo não tem sentido sem a forma; os artistas são criadores de novas formas de equilibrar o conflito entre os nossos impulsos e nosso senso de segurança, que deve ser baseado no auto controle advindo da elaboração interior do conflito.

A democracia é o exercício da liberdade; a identificação com a autoridade está ligada à tendência anti-social e exclui a identificação com um grupo social.

A distorção do limite também distorce o espaço e, consequentemente, distorce os processos maturacionais; o limite pode ser fraco, ou rompido,ou ausente; isto retira a forma, retirando também o significado da experiência vivenciada no espaço.

O pai tem a função de proteger a mãe e o bebê; o sentimentalismo e a reação permissiva enfraquecem os limites; a assunção da própria maldade evita a depressão e o sentimentalismo.

“O parâmetro para a permissividade é a dificuldade do desmame; o exercício da democracia pressupõe a capacidade de respeitar as leis.

A violação do limite pode vir de fora; a ditadura é um exemplo disso; na verdade, a sociedade deve se preocupar em prover apoio aos pais normais através do acesso à moradia, à alimentação, ao vestuário, à instrução, ao lazer e ao alimento cultural para o lar comum; a confiabilidade do lar é fundamental para a criança.

O brincar é espontâneo e depende da liberdade da vida pulsional; depende de experiências vitais vivenciadas no espaço potencial; este e um lugar onde usamos símbolos; os fenômenos transicionais estão na raiz da capacidade humana para o uso de símbolos.

No espaço potencial entre o bebê e a mãe, aparece o brincar criativo, que surge naturalmente a partir de um estado de relaxamento; assim, ocorre um uso de símbolos que representam os fenômenos do mundo externo e do mundo interno, ao mesmo tempo.

A aquisição do sentimento de continuidade do tempo é fundamental; este sentimento está distorcido nas psicoses e nas privações (delinquência).

Da capacidade de ser surge a capacidade de fazer; de criar e recriar o ambiente cultural.

PROVA DO CURSO CONCEITOS PSICANALÍTICOS I – 1ª AULA

1ª questão – Complete as frases:

A psicanálise tem como um de seus principais conceitos, o de  ________________, a qual ocorre em todo tratamento psicanalítico; esta ________________ é oriunda da projeção inconsciente do conflito infantil na relação com o analista; este conflito é _______________, entre a _______________ inconsciente do ego e o impulso inconsciente do _____________.

2ª questão – Complete as frases:

A especulação em psicanálise pode ser percebida como, em geral, sendo decorrente da ação inconsciente das _____________  ____  _______________, que visam colocar conceitos sempre “mais aceitáveis” ao sistema cultural vigente, no lugar dos incomodativos conceitos psicanalíticos, da sexualidade infantil e da transferência inconsciente da mesma às relações interpessoais entre os adultos, por exemplo.

Esta substituição de algo “inapropriado” por algo mais “aceitável” é justamente a essência da ação das _____________   ____  _______________ sobre os impulsos do ________________.

3ª questão – Complete as frases:

No texto escolhido para esta primeira aula, Freud traz definições bastante precisas a respeito dos conceitos psicanalíticos básicos e da Teoria Psicanalítica, em 1924.

Podemos inferir a importância da observação, em psicanálise, e as extensas limitações da especulação na formação dos conceitos psicanalíticos, desta revisão histórica da criação da psicanálise, na qual Freud relembra a fundamental aplicação da “observação exaustiva dos fenômenos psíquicos”, metodologia esta criada por ___________ e as descobertas dos fatos clínicos relativos à ideogênese inconsciente dos sintomas histéricos, efetuadas por Joseph ____________, a partir do intensivo trabalho de associação entre o sintoma e a ideia inconsciente, na análise de pacientes histéricos sob ____________.

4ª questão – Complete as frases:

____________ é o nome dado à energia da pulsão sexual, enquanto agressividade é o nome dado à energia da pulsão de _______________.

5ª questão – Complete as frases:

Podemos observar ______________ organizações pré-genitais da libido: a organização ___________, onde os pontos de fixação estão ligados a sintomas _____________; a organização ____________ – ____________, onde os pontos de fixação estão ligados aos sintomas da neurose _______________ e a organização____________  ____________ onde os sintomas estão ligados a pontos de fixação mais avançados, produzindo a ________________. Atuações perversas infantis são naturais, enquanto sua persistência, no lugar do desenvolvimento da libido, constitui as ______________ sexuais do adulto; estas mesmas tendências ___________ ___________ estão no Id dos _______________ e psicóticos.

CURSO CONCEITOS PSICANALÍTICOS I RESUMO DOS VERBETES – 6ª AULA

  1. Desinvestimento

É a retirada do investimento que estava ligado a uma representação, a um grupo de representações, a um objeto, a uma instância, etc.

É o estado em que se acha a representação (após a retirada ou na ausência de qualquer investimento).

  • É relativo à separação entre o quantum de afeto e a representação.
  • A energia desinvestida da representação é usada como anticatexia no recalque e a energia desinvestida nos objetos investe o ego, nos estados narcísicos.
  1. Deslocamento

Permite a mudança da intensidade de duas representações associadas; a energia é deslocada de uma representação importante, intensa, para outra sem importância, fraca, antes do recebimento da energia deslocada.

O fenômeno ocorre na formação dos sonhos e dos sintomas neuróticos; ocorre, na verdade, em todas as formações do inconsciente. O livre deslocamento da energia é o modo como o processo primário rege o funcionamento do Inconsciente.

  • Assim, o afeto é potencialmente independente da representação, como mostra a clinica.
  • No processo secundário, o deslocamento é limitado e com pouca disponibilidade de energia.
  • O conteúdo manifesto se refere a um conteúdo latente que foi deslocado, nos sonhos; o deslocamento transmuta valores psíquicos.
  • O deslocamento tem função defensiva; é também a característica essencial do processo primário; assim, a defesa usa o deslocamento natural da energia, no Inconsciente.
  1. Condensação

É o fato de que uma única representação psíquica pode conter a representação simultânea de várias cadeias associativas sendo, aquela representação, a interseção destas cadeias; a representação condensada recebe e contém a energia psíquica proveniente das várias cadeias associativas adicionadas na representação condensada.

A condensação é um dos modos essenciais de funcionamento do Id e opera no sintoma, no sonho e em todas as formações psíquicas que têm a participação do Id.

O conteúdo manifesto do sonho é uma tradução resumida do seu conteúdo latente, mas a condensação não é um “resumo”, na medida em que cada elemento latente também pode ser representado em diversos elementos do conteúdo manifesto condensado.

  • A condensação é um dos mecanismos psíquicos implementados pelo trabalho do sonho.
  • Pontos nodais se prestam à condensação (um elemento onírico presente por diversas vezes em diferentes pensamentos do sonho, tende a ser conservado no conteúdo manifesto, justamente por (apenas) ser um ponto nodal).
  • Uma unidade desarmônica pode também ser criada pela reunião de diversos elementos oníricos (imagens sensoriais oníricas).
  • O reforço dos traços comuns pode suplantar os traços não coincidentes, atenuando-os através da condensação.
  • A condensação também está presente nas parapraxias e nos chistes (anedotas); neologismos são formados por condensação, nos sonhos.
  • A condensação é uma característica do pensamento inconsciente que contribui para a ininteligibilidade do conteúdo manifesto do sonho, servindo, indiretamente, aos interesses da censura, sem ser criada por ela.
  • As condições do processo primário (energia livre e busca da identidade de percepção) favorecem à condensação; sendo assim, o desejo inconsciente será processado por condensação e os pensamentos “pré-conscientes” atraídos para o Inconsciente serão processados pela censura do sonho (ação da defesa inconsciente do ego).
  • A “representação-encruzilhada” condensa as energias que foram deslocadas ao longo de diferentes cadeias associativas; a vivacidade e intensidade sensorial de uma imagem onírica são signos da condensação (forte investimento de energia nesta imagem).
  1. Deformação

É o efeito global do trabalho do sonho, no qual os pensamentos (conteúdos)  latentes são transformados em um produto manifesto dificilmente reconhecível.

  • Uma “transposição” do conteúdo latente em conteúdo manifesto não corresponde ao que na realidade ocorre, isto é, uma deformação do conteúdo latente pelo trabalho do sonho.
  • Ocorre a desfiguração dos pensamentos (conteúdos) latentes, a qual remete ao trabalho de interpretação do sonho; a “alteração” do conteúdo latente é, na verdade, uma deformação.

[Comentários ao Verbete] – [Os termos demolição, destruição, dissolução, são aplicados ao destino dos componentes do Complexo de Édipo, efetuado através dos mesmos mecanismos de deformação atuantes no destino do conteúdo latente no sonho.

      Por outro lado, Freud afirma que, se ocorre apenas o recalque dos componentes do complexo de Édipo, estes retornarão como sintomas histéricos.

      Assim, há uma deformação do Complexo de Édipo, visando à sua inconscientização, tal como ocorre em relação ao conteúdo latente do sonho; assim, deformação (destruição, dissolução, demolição) é muito mais do que recalque e ocorre usualmente em relação ao conteúdo latente do sonho e em relação ao Complexo de Édipo].

Ansiedade – A Visão Psicanalítica

É uma ocorrência bastante comum na vida das pessoas, se devendo a diversas causas, tais como dificuldades de relacionamento interpessoal, frustrações existenciais, excesso de decepções e de fracassos na administração dos sentimentos, desejos e emoções.
A síndrome da ansiedade se caracteriza por um grande insegurança em relação ao comportamento do corpo, o qual passa a apresentar taquicardia, falta de ar, sensações de mal- estar, tonteiras e, nas crises de pânico, uma usual sensação de morte iminente.
A experiência psicanalítica mostra que essa “ansiedade” (também descrita como “nervosismo”, “insegurança”, “ânsia”, “angústia”) tem origem na estrutura do Aparelho Psíquico do ser humano, constituindo-se essencialmente de “somas de excitação corporal, que dariam origem às pulsões de vida e de morte, as quais estão sendo descarregadas diretamente no corpo, promovendo a liberação de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), as quais são responsáveis pelo sintomas de “mal-estar”.
A liberação de catecolaminas é o resultado de um reflexo de “luta ou fuga” desenvolvido durante a experiência dos sêres humanos através das inúmeras gerações, na interação com predadores e nas disputas por território, alimento e direito à reprodução; situações psíquicas estressantes, na família ou dentro de um escritório, por exemplo, são também capazes de acionar uma descarga de catecolaminas a partir da medula das glândulas suprarenais, gerando os sintomas de mal-estar, angústia, ansiedade ou pânico.
O termo “angústia” denota a sensação indefinida de mal-estar, isto é, uma perspectiva inquietante, com uma “negatividade expectante”, antevista para acontecer a curtíssimo prazo (“no próximo instante”, em segundos, em minutos) e que mobiliza toda a atenção do indivíduo, paralisando suas outras atividades ou substituindo-as.
Devemos diferenciar a angústia, da hipocondria (ambas rotuladas por Freud, em 1895 e 1914, respectivamente, como sendo tipos das “neuroses atuais”); na última, existe uma “falha narcísica no amor próprio e na autoestima” que permite a criação de fantasias a respeito do adoecimento de órgãos do corpo e dos seus tecidos (um “câncer”, por exemplo), sem que exista qualquer comprometimento real dos mesmos.
Como já dissemos, o aspecto essencial na ansiedade é a falta da elaboração psíquica do conflito inconsciente mas, neste caso, devida à ausência da representação psíquica das somas de excitação que deveriam ser representadas no Id e elaboradas pelo Ego, com vistas à sua descarga psicomotora; esse “bloqueio na representação psíquica das somas de excitação originárias do corpo”, o qual impede também a elaboração psíquica dessas somas de excitação, gerando um excedente de energia no interior do psicossoma, é o responsável pela descarga de energia nervosa que proporciona a liberação das catecolaminas diretamente no corpo.
A experiência negativa com as crises e o estado crônico de angústia agrava a situação, gerando o mêdo de novas crises (“que são esperadas como possivelmente sendo mais graves”).
Além da medicação com ansiolíticos, os pacientes portadores de ansiedade devem iniciar a psicanálise, no intuito de restaurar sua capacidade de representação psíquica e de elaboração do conflito interno inconsciente, uma vez que as causas das crises de ansiedade estão em inadequações e insuficiências no trabalho de elaboração e administração dos desejos, dos sentimentos, das emoções e da agressividade do paciente.