Depressão – A Visão Psicanalítica

A experiência psicanalítica mostra que a depressão é um sintoma comum a múltiplos transtornos mentais; ela se forma a partir do retorno da libido (“energia da pulsão sexual”) e da agressividade (“energia da pulsão de morte”) para o interior do psicossoma do indivíduo, em virtude de frustrações estabelecidas na relação do mesmo com os objetos psicossexuais e psicossociais externos.

Esse movimento de “retração ao Ego” (introversão, retorno) das pulsões de vida e de morte é a essência do processo psíquico que leva à depressão, tal como ocorre também no autismo, nas esquizofrenias e na grave dependência de “drogas fortes”
(crack, heroína e cocaína).

Algumas exigências psíquicas para a ocorrência da depressão grave (“melancolia”, “fase depressiva do transtorno bipolar”) são descritas e enfatizadas pelo conhecimento psicanalítico e não podem faltar, enquanto fenômenos psíquicos que acompanham a instalação da depressão. Alguns deles estão listados abaixo:

  • Baixo amor próprio, gerador da falta de esperança característica desses
    pacientes;
  • Baixa auto-estima, decorrente de um julgamento condenatório e inerme a
    respeito da própria capacidade do indivíduo em “jogar o jogo da vida”,
    expressando o retorno ao Ego e a predominância da ação da pulsão de morte
    no psiquismo do indivíduo;
  • Internalização de uma relação sadomasoquista e frustrante, no relacionamento
    com os objetos psicossexuais incestuosos, vivenciado nos primeiros 36 meses
    de vida;
  • Inversão do sadismo original do bebê (de alguns meses de idade) em um
    arraigado masoquismo do Ego, que é reforçado por um Superego sádico e
    cruel.

Sem essas características, não é possível a ocorrência das graves, intensas e perigosas “depressões maiores”; Freud, em 1917, descreve o mecanismo psíquico da “identificação do Ego com o objeto perdido”, como o causador dessa “depressão
major”, que acontece na “psicose maníaco depressiva” (ou “transtorno bipolar”). Os textos de Freud de 1914, 1915, 1917, 1920 e 1924 esclarecem os mecanismos psíquicos que possibilitam a formação dos sintomas melancólicos; os estudos de K.
Abraham (1924, 1926) mostram a “regressão da libido à fase anal-sádica expulsiva”, que ocorre nesses pacientes, quando em crise, e sua vivência psíquica na fase anal-sádica retentiva (tal como os neuróticos obsessivos), nos períodps entre as crises;
Melanie Klein (1932) descreve a “posição depressiva” do bebê, aos 4 meses de idade, como um passo fundamental para a geração de psicoses, de neuroses e da personalidade sadia.

Assim, a teoria psicanalítica coloca a depressão como um fenômeno decorrente da retração da libido e da agressividade ao Ego, efetuada a partir da desistência do “amor ao próximo”, que é transformado em “ódio a si mesmo” e abandono das relações
psicossexuais e sociais.

Além da “depressão melancólica”, existe a depressão “leve” ou “moderada” (“reação depressiva”, “luto”) que ocorre quando da perda de entes queridos, de mudanças negativas na vida profissional, da frustração advinda dos “fracassos narcísicos” provocados por doenças, perda de emprego, perda de “status social”, constatação de impossibilidades na realização de ideais infantis e motivos correlatos; nesses casos, o Ego é enfraquecido, necessitando de um período de tempo, no qual precisa ser feita a elaboração do luto, mas sem a ocorrência da identificação do Ego com o objeto psicossexual “lesado pelo Ego” (Freud; 1914, 1915, 1917, 1920, 1924; Melanie Klein; 1932; K. Abraham (1924, 1926); D.W Winnicot (1971)). Deste modo, a diferença entre a “depressão narcísica” (“melancólica”) e a “depressão reativa” (“luto”) é que, na primeira, o Ego tende a ser destruído a partir da sua identificação com o objeto lesado e pelo Superego sádico e cruel, enquanto no luto, o Ego se mantém com a auto-estima e o amor próprio preservados, mas vivenciando sentimentos de perda, lástima e tristeza pela ausência do objeto amado. Deste modo, a “depressão major” é a maior causa de suicídios, atingidos 0,7% dos indivíduos e a “depressão reativa”, em suas formas moderadas, crônicas, é a maior causa de perda da qualidade de vida.

O tratamento psicanalítico é imprescindível em todas as formas de depressão, tendo o potencial de eliminá-las, a partir da “elaboração dos conflitos psíquicos inconscientes”.

Resenha Crítica do Texto a Aquisição e o Controle do Fogo (Sigmund Freud, 1932)

  1. INTRODUÇÃO

O conteúdo do Texto traz novas informações a respeito da gênese dos mitos e lendas a partir da experiência corporal da criança pequena, isto é, tal como nossos sonhos e sintomas de transtornos mentais, os mitos e lendas são criados a partir da incidência de mecanismos psíquicos (tais como a inversão e a simbolização) sobre atividades corporais cotidianas, representadas no psiquismo.

São abordadas as correlações do erotismo uretral com as percepções e projeções internas relativas à existência do fogo, da água e da sua mútua antítese, com a estrutura do mundo fantasístico interno interagindo com estas percepções e criando os mitos.

  1. RESUMO DA RESENHA CRÍTICA

A ideia (alicerçada na experiência psicanalítica) de que a psique trabalha as percepções da realidade, produzindo cultura a partir das experiências corporais, é a ideia central contida no Texto.

Deste modo, o fogo, a água, e sua mútua antítese, são objetos das projeções da estrutura do mundo interno, criando os mitos e as lendas. Assim, o fogo é também um “fogo humano”, usado como símbolo das questões básicas do mundo interno, vinculadas ao amor próprio, à autoestima, aos limites, à sexualidade e à agressividade.

O fogo é vinculado pela psique humana à ambição, ao poder, à agressividade e à sexualidade; seu controle acarreta conflitos e punições.

  • RESUMO DO TEXTO
  • Um desejo infantil de “apagar o fogo com jatos de urina” pode ter sido abandonado, para que fosse adquirido o controle sobre o fogo; “é proibido apagar o fogo com a micção”, determina um antigo costume mongol.
  • A correlação entre as experiências infantis reprimidas e os sonhos são as mesmas existentes entre o desejo infantil e os mitos, isto é, ocorre a distorção do desejo infantil por meio da representação simbólica e da transformação no oposto.
  • No mito de Prometeu, o fogo é roubado dos deuses e entregue aos homens, tendo antes “sido escondido em um pau oco”; a inversão (transformação no contrario, inversão da relação) (no pênis é encontrado o meio de apagar o fogo) pode ter sido utilizada na criação deste mito.
  • Existem as conexões “fogo-água” e “fogo-crime”; no caso da aquisição do fogo, o “crime” é cometido contra os deuses; assim, o Id (deuses) é lesado, em seu desejo de apagar o fogo.
  • A punição do portador do fogo (Prometeu) é um exemplo também de transformação no oposto, isto é, o fígado (sede das paixões, na Antiguidade) é o órgão onde a punição é exercida; o beneficio cultural da aquisição do fogo é colocado como um crime contra a vida pulsional (sacrifício do impulso pulsional); o fogo se vincula com o amor, sendo também um símbolo fálico; apagar o fogo com a urina é uma luta entre dos falos; os desejos eróticos, tal como o fígado parcialmente devorado pelo abutre, se renovam todos os dias; o abutre é também um símbolo fálico, bem como a fênix que ressurge das cinzas.
  • Também na lenda da Hidra de Lerna, Hércules é obrigado a queimar a cabeça da serpente imortal; “um dragão aquático foi vencido pelo fogo”; ai ocorre nova inversão ao oposto, tal como ocorre nos sonhos.
  • Prometeu, ao preservar o fogo, age como os mongóis com a sua lei repressora à tendência de “urinar sobre as cinzas quentes”; é também Hércules quem liberta Prometeu, matando a ave que bicava seu fígado.
  • Além do fator histórico, da fantasia simbólica, temos o fator fisiológico do uso do pênis para a micção e para a ejaculação; uma das teorias sexuais infantis estabelece que a fecundação da mulher é realizada pela urina do homem.
  • O pênis excitado é simbolizado por pássaros, por fogo e esta excitação impede a micção (“agua do corpo”); isto reforça a antítese entre o fogo e a água, base dos dois mitos citados.
  1. REVISÃO DO TEXTO EM 2015

Vemos que a essência desta contribuição é trazer a explicação para os mitos e lendas relacionados ao fogo, à água e à sua mútua antítese, como sendo uma decorrência da aplicação de mecanismos que regulam a vida psíquica interior, alicerçada na sexualidade, na agressividade e na necessidade de sobrevivência.

Vemos que a repressão (o controle) é simbolizada pela água (que “apaga o fogo”) e os impulsos agressivos e libidinais são simbolizados pelo fogo; não apagar o fogo implica na possibilidade de não ter controle sobre ele, sendo este mesmo controle inerentemente muito trabalhoso, justamente pela manutenção do “fogo”, com necessidade de administrá-lo.

Expressões corriqueiras, tais como “o fogo da paixão”, “isto é fogo”, mostram a mesma correlação das chamas e labaredas com os impulsos fortes e sem controle.

Portanto, mais uma vez encontramos em um texto de Freud uma profunda percepção da natureza humana e da forma como a psique projeta suas questões básicas nas percepções do mundo externo; realmente, a explicação para a gênese do mito de Prometeu e da historia da Hidra de Lerna, bem como a explicação das correlações entre o material dos mitos e a estrutura da psique, estão muito claras, no Texto.

  1. IMPORTÂNCIA DO TEXTO PARA A PSICANÁLISE

Farto material semelhante ao encontrado neste Texto é trazido pelo estudo dos sonhos, dos sintomas, das produções literárias, dos contos de fadas, do folclore, da linguística e de outros mitos e lendas.

Portanto, o material do Texto reafirma descobertas psicanalíticas anteriores, vinculando o processo de civilização do ser humano a um “mal estar”, que é decorrente da frustração do impulso sexual/agressivo original. Esta frustração na satisfação do movimento pulsional, em busca da descarga psicomotora direta, é a essência que possibilita a conquista da civilização.

O “mal estar” de “lidar com o fogo”, mantendo-o aceso, próximo, é claramente perceptível nos dois mitos abordados neste Texto.

Além destas correlações genéricas com o tema da “geração da cultura a partir da situação psicossomática interna”, o material do Texto mostra claramente o conflito entre “usar a água e usar o fogo”; “fazer uso do fogo, sem destruir tudo”, “usar a água para apagar o fogo, de uma vez” e inúmeras outras interessantes e importantes correlações.

A originalidade desta contribuição (“correlação entre o lidar com o fogo e o lidar com o erotismo uretral e a ambição”) e da sua inserção no contexto maior da civilização humana dão grande importância ao Texto.

  1. CONCLUSÃO

O texto traz um leque de questões humanas sempre atuais e que necessitam ser resolvidas, ao nível da sua abordagem básica, inicial.

Realmente, não podemos adorar os “deuses do Id”, com sua impulsividade, destrutibilidade e irresponsabilidade; nem podemos adorar os “deuses do Superego”, com sua irrefletida compulsão a punir, isto é, “não resolver o conflito”; o fogo, a água, e sua antítese, são imortais, não há como mudá-los; só nos resta estudar suas características, trabalhar para encontrar a harmonia adequada entre suas forças e reconhecer a existência deste novo deus, o deus da abordagem cientifica e adequada da realidade interna, da realidade externa e de suas eternas e imutáveis correlações básicas.

A punição a Prometeu é primitiva, agressiva, injusta e ineficaz; porém, para “aceitar o fogo, roubado dos deuses”, e doado a nós, é preciso aprender a lidar com ele, sabendo usar a “água”, quando necessário.

Prometeu não nos ensinou isto, mas devemos ser “gratos a ele” por nos dar o fogo para ser usado por nós e para nós; é nossa tarefa fazer o trabalho imprescindível de aprender a conviver construtivamente com o “fogo” e isto implica em não ser submisso nem ao “fogo”, nem à “água”.

É urgente a aquisição desta postura científica, a qual implica necessariamente na “aceitação de um trabalho antropocêntrico a ser realizado”; o adiamento da aplicação cultural e social destas descobertas psicanalíticas coloca em risco a sobrevivência da nossa espécie, em um mundo onde a extinção das espécies é a regra; temos “o fogo” que nos foi dado por Prometeu, mas precisamos complementar o trabalho; ave, Hércules!

Autor: LEONARDO FERREIRA DE AZEVEDO E SILVA