Resenha Crítica da Comunicação Preliminar de Breuer e Freud

(O MECANISMO PSÍQUICO DOS FENÔMENOS HISTÉRICOS), BREUER E FREUD (1893)

I – INTRODUÇÃO

O Texto é dividido em 5 partes. Já no título, somos informados da grande descoberta de Breuer, a de que os sintomas histéricos são formados através de um mecanismo psicogênico.

Como veremos a seguir, os pressupostos fundamentais do conceito de inconsciente psíquico, da sua natureza e da sua importância decisiva na gênese dos transtornos mentais, já estão descritos neste Texto .

II – RESUMO DA RESENHA CRÍTICA

Na Comunicação Preliminar, encontramos a descrição da descoberta de que complexos de idéias, inconscientizadas pela ação de defesas psíquicas aplicadas aos afetos perigosos e desagradáveis inerentes a estas idéias, são a causa da formação dos sintomas histéricos .

Esta relação decisiva é estabelecida entre o afeto intenso, inconsciente, potencialmente desagradável, e a defesa psíquica aplicada ao mesmo, no sentido de afastá-lo da consciência.

Este fato estabelece um paradigma para a Psicanálise, norteando a aplicação da técnica psicanalítica e a produção teórica dos conceitos psicanalíticos (conforme enfatizados por Sigmund Freud, em 1914, em sua História do Movimento Psicanalítico) e também mostra que o tratamento psicanalítico só se completa quando ocorre a ab-reação destes afetos inconscientes relacionados à sexualidade infantil, mediante a elaboração do conflito existente entre as defesas psíquicas e estes afetos, realizada através da palavra.

Portanto, a inexistência de informação a respeito dos resultados do trabalho do sentimento de culpa edipiano inconsciente, da atitude do analisando em relação ao seu complexo de castração e à sua onipotência narcísica infantil, sinaliza a provável não ocorrência da ab-reação dos afetos correspondentes a estes conflitos e consequentemente, a falta do tratamento psicanalítico e, por isto, a ausência dos resultados terapêuticos esperados.

III – RESUMO DO TEXTO

Na parte I a causa precipitante do sintoma (“atual”) histérico é reportada a um passado distante na vida do paciente, sendo comunicada ao leitor a existência de uma longa pesquisa de inúmeros casos, durante muitos anos, antes da publicação desta comunicação preliminar .

Já de início, a incapacidade do paciente em evocar a experiência psíquica remota geradora dos sintomas é enfatizada, juntamente com a descrição do método utilizado na descoberta deste fato, isto é, a atuação do terapeuta no sentido de procurar religar as lembranças remotas ocultas ao sintoma atual, estando o paciente sob hipnose.

Estas lembranças ocultas  são de natureza desagradável, ameaçadora, provocando forte mobilização psíquica quando recordadas, mesmo sob hipnose. Tal fato ocorre em todos os tipos de histeria abordados. A conexão causal entre as lembranças do trauma psíquico remoto e o sintoma histérico delas decorrente está também, de início, oculta para o paciente e para o terapeuta.

É observada a desproporção entre as forças psíquicas do sintoma e do trauma causador do mesmo, sendo o sintoma reportado ao afeto despertado pela experiência traumática, agora inconsciente.

O fato de que a representação ideativa do trauma está oculta e inacessível, porém decisivamente atuante, é relatado na descoberta fundamental de que “qualquer sintoma histérico desaparece, de forma imediata e permanente, se a condição da evocação da lembrança e da expressão de seu afeto correlato for satisfeita”. Portanto, a causa dos sintomas está em reminiscências psíquicas carregadas de sentimentos antigos e desagradáveis, agora ocultos.

No capítulo II, as causas do desinteresse psíquico consciente por lembranças são analisadas, com os autores enfatizando o valor afetivo destas lembranças como sendo responsável pela sua permanência como objeto do desinteresse psíquico consciente e a necessidade de uma reação adequada ao afeto provocado, isto é, a sua descarga ou a sua ab-reação através da linguagem; também o uso de outra formas de lidar psiquicamente com o(s) fato(s) psíquicos ocorridos (associações ) e o natural desgaste pelo tempo que sofrem todas as lembranças são citados.

Oa autores concluem que as lembranças excluídas da consciência e correspondentes aos traumas psíquicos não foram suficientemente ab- reagidas e, por isto, se tornam geradoras dos sintomas .

Dois tipos de reação inadequada aos traumas remotos são citados: o tipo devido à ação do recalque e o tipo devido a estados hipnóides existentes da mente humana, ambos ligados à força dos afetos despertados e/ou concominantes aos eventos traumáticos; além disso, a reação adequada está impedida em ambos os casos, em virtude da exclusão das lembranças e de seu afeto da associação com as representações conscientes.

Na parte III, é marcado o fato de que existe uma divisão da consciência na histeria, devida à existência de estados psíquicos que não são conscientes, o que implica também na existência de duas memórias diferentes, uma para cada tipo de estado psíquico. O fato da existência de estados hipnóides no psiquismo humano é a condição indispensável para a existência da histeria; as representações psíquicas existentes neste estado são muito intensas, mas isoladas da comunicação associativa com o restante das representações conscientes; estas lembranças também possuem um grau elevado de organização psíquica.

Novamente, os autores falam de uma “  histeria psiquicamente adquirida ” .

Surgem comparações entre os sintomas histéricos e os sonhos de pessoas normais, diferenciando-os quanto ao poder de influência negativa na experiência vivencial em vigília, que é característica do sintoma.

Na parte IV, os ataques histéricos são incluídos como também decorrentes das mesmas condições psíquicas geradoras da histeria traumática e da histeria clássica (comum), havendo citações do trabalho descritivo de Charcot a respeito, e correlacionando a fase alucinatória do ataque histérico, com a mesma lembrança inconsciente gerando o sintoma histérico e mostrando a presença desta lembrança subjacente às outras fases do ataque histérico.

Em seguida, são citadas situações clínicas onde este fato fica perceptível através da hipnose do paciente e onde fica demonstrada a perda da força ou o desaparecimento dos ataques, após a ab-reação dos afetos ligados a esta mesma lembrança, efetuada sob hipnose.

Novamente, a existência de uma segunda consciência é realçada, bem como o fato de que esta tem a capacidade de se expressar indiretamente através do sintoma, que se impõe, se intromete, nos domínios da primeira consciência (isto é, o estado de vigília normal), na histeria comum, e que assume todo o controle da psicomotricidade, no ataque histérico.

Na parte V, os autores fazem considerações a respeito do efeito curativo do método de tratamento da histeria descrito, atribuindo-o à capacidade que a ab-reação tem para eliminar a força atuante da representação (“lembrança”),  por conseguir dar saída ao afeto estrangulado que é inerente a esta representação, através da fala; também ocorre simultaneamente uma correção associativa para esta representação, em virtude da sua reintrodução na consciência normal.

Os autores também se declaram descobridores do mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, mas indicam que o conhecimento da etiologia da histeria exige maior aprofundamento na sua investigação.

IV – REVISÃO DO TEXTO EM 2015 (UMA PEQUENA AVALIAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO TEÓRICO DA PSICANÁLISE)

Já em 1914, tomamos ciência, através de Freud, da forma de resistência mais utilizada para tentar interferir no ato psicanalítico a favor da defesa psíquica, que é “denominar como sendo psicanalise aquilo que não é psicanalise”.

Os analisandos se utilizam deste expediente mediante a redução do número de sessões, a sonegação de informações, as atuações fora do “setting” e diversos outros modos, incluindo o vínculo com “analistas”, tendo sempre como resultado, após algum tempo, a contradição entre a expressão “eu já fiz análise” e o comportamento infantil do indivíduo, muitas vezes desprovido de qualquer maturidade, do ponto de vista social.

Quando a defesa psíquica, alicerçada na necessidade de manter a onipotência infantil, leva as pessoas a buscar “tornarem-se psicanalistas”, contando com teorias e técnicas, ditas psicanalíticas, para reforçar estas defesas, torna-se necessário mostrar a impotência destes procedimentos, diante da verdadeira tarefa a ser realizada, e pontuar que a aplicação destas “teorias” e “técnicas” só pode resultar na manutenção da transferência destes conteúdos sexuais infantis não trabalhados para todas as atividades sociais destes indivíduos, agora com o suposto “aval da psicanálise”. Deste modo, os analisandos neuróticos e psicóticos continuam sem tratamento, quando poderiam ter a oportunidade de realizá-lo, caso encontrassem psicanalistas.

Em relação aos “analistas” perversos, a força da sua onipotência, seu potencial de ação destrutiva e a preservação da capacidade cognitiva permitem até mesmo que sejam criadores de “novas psicanálises”, o que dificulta, sobremaneira, seu acesso à psicanálise, como analisandos.

Sua ação social, resultante da transferência dos conteúdos sexuais infantis inconscientes não ab-reagidos, tende a confundir e a lesar aqueles que se relacionam com eles. Dentro do movimento psicanalítico contribuem para o seu descrédito, devido à ineficácia terapêutica da sua ação e aos prejuízos que causam àqueles que os procuram.

Mas, nada disto vai mudar a realidade descrita neste Texto, e só a ab-reação dos afetos sexuais infantis inconscientes, exclusivamente alcançável através da elaboração do conflito psíquico infantil, proporcionará o desaparecimento dos sintomas …

V – IMPORTÂNCIA DO TEXTO PARA A PSICANÁLISE

Como vimos, o texto nos informa a respeito de FATOS FUNDAMENTAIS que ocorrem na histeria.

São eles:

( A ) –  A existência de representações psíquicas carregadas de intensos sentimentos desagradáveis (“insuportáveis”, que estão ocultas, desconhecidas, na atualidade, para o paciente histérico).

( B ) – A conexão decisiva entre o afeto inerente a estas representações ocultas e o sintoma histérico; “se a ab-reação destes afetos implica no imediato e permanente desaparecimento do(s) sintoma(s), é porque este sentimento oculto tem conexão causal com o sintoma”.

( C ) – A ocultação desta(s) lembrança(s) carregada(s) de intensos sentimentos é promovida pelo recalque (defesa psíquica),  aplicado a elas em virtude da força do seu afeto em promover estados psíquicos conscientes de intenso sofrimento .

( D ) – Esta ação da defesa psíquica cria um lugar psíquico onde existem lembranças intensamente carregadas de perigosos sentimentos, as quais, precisamente por isto, (“perigosa ação psíquica”) são mantidas excluídas da associação usual com outros pensamentos conscientizáveis, não sendo, portanto, (re)conhecidas como pertencentes ao EU, pelo individuo.

Se olharmos com atenção, todos os pressupostos básicos da Psicanálise já estão aqui, isto é;

1°) A metodologia de produção de conceitos psicanalíticos; “todos os conceitos psicanalíticos devem ser coerentes com a descoberta fundamental de que só (re)encontrando o afeto perdido e (re)conduzindo-o ao seu destino de descarga é que o sintoma desaparece ” .

2°) O material inconsciente será tão mais importante, na medida em que traga consigo componentes afetivos e volitivos menos ou mais intensos .

3°) Se estes componentes, além de intensos, forem perigosos, serão excluídos da consciência pela ação da defesa psíquica .

Isto coloca o analista e o analisando na “ busca do afeto perigoso perdido ” , o que exige a abordagem da dialética existente entre os impulsos sexuais infantis e as diversas defesas psíquicas aplicadas a êles, o que exige  habilidade técnica para o seu adequado manejo.

Sabemos que a sexualidade infantil (descrita em 1905 ,por Freud) explica a “desproporção entre o sintoma histérico e o trauma” e que os “afetos perigosos” são aqueles oriundos das principais estruturas fantasísticas encontradas como decorrência da ação psíquica da sexualidade infantil, que são as fantasias relacionadas ao Complexo de Édipo, ao Complexo de Castração e ao Narcisismo Infantil Onipotente .

Sabemos também que existem pelo menos quatro tipos nucleares de defesa psíquica; a “recusa da castração”, geradora de sintomas perversos, mediante modificação no Ego, tornando-o permissivo ao impulso que seria proibido à consciência no psicótico, no neurótico e nas pessoas normais; o “rompimento com a realidade” (“um processo que retira o Ego da realidade”) (Freud, 1925), acarretando sintomas psicóticos; a simples separação entre o afeto e a representação correspondente, sem inconscientizá-los, que gera sintomas obsessivos (Freud, 1894, 1896, 1926) e o recalque, já descrito no Texto.

A ação de qualquer um dos quatro tipos de defesa visa impedir a conscientização do real estado afetivo da “segunda consciência”, descrita no Texto.

Esta afirmativa se baseia na farta experiência clínica da Psicanálise, organizada teoricamente por Freud nos textos a respeito das parapraxias (Freud, 1901, 1916), dos chistes (Freud, 1905), da interpretação de sonhos (Freud, 1900, 1914 e outros), dos estudos antropológicos (Freud, 1913, 1930), e em outros inúmeros textos; mas, a essência destas descobertas já está aqui, neste Texto, onde se vê claramente, clinicamente, a gênese da ação defensiva psíquica e do sintoma dela decorrente, a partir do afeto intensamente desprazeroso, e, por isto, perigoso. Estudos psicanalíticos posteriores mostram que os “perigos” são basicamentes relacionados às ameaças de destruição da identidade e do amor próprio da criança, decorrentes de uma insuficiente elaboração da ação psíquica das fantasias sexuais infantis.

As consequências destas descobertas são riquíssimas e múltiplas;enfatizaremos aqui apenas mais três delas;

  1. A existência de uma hierarquia entre estas defesas psíquicas, sendo a recusa da castração a mais primitiva delas, por manter a pessoa mentalmente doente e impotente, sem qualquer percepção da sua doença, condenando-a a repetir o mesmo modo estereotipado de comportamento,usando as relações interpessoais como espaço para atuações destrutivas, oriundas destas lembranças sexuais infantis inconscientes, fortemente dissociadas e inacessíveis ao tratamento; o recalque, descrito no Texto, é a mais evoluída das quatro defesas citadas, sendo também a defesa psíquica utilizada por pessoas normais para lidar com estas mesmas lembranças ameaçadoras, com a ajuda da sublimação, da elaboração, da satisfação dos ideais e da satisfação das pulsões.
  2. A existência de um paradigma irrefutável para a teoria psicanalítica:

[“psicanalisar é procurar criar condições que proporcionem a ab-reação dos afetos perigosos oriundos das experiência psíquicas conflitantes determinadas pela sexualidade infantil”]; isto é, [“psicanalisar implica em procurar conseguir que o analisando faça a ab-reação (elaboração) dos afetos ameaçadores relacionados ao Complexo de Édipo, Complexo de Castração e Narcisismo, infantis”] e [“qualquer teoria que desconsidere, minimize, distorça, desvalorize estes procedimentos, não pode ser denominada de psicanálise  porque, na verdade, está a serviço somente das defesas psíquicas e, não, da elaboração da dialética existente entre a(s) defesa(s) e os impulsos sexuais infantis carregados destes (específicos) afetos, que trazem, em si, e só em si (exclusivamente), a energia psíquica necessária para a formação dos sintomas de transtornos mentais”.]

  1. O reforço da defesa psíquica proporcionado pelas distorções da teoria psicanalítica age obviamente impedindo, por omissão, a (re)entrada na pré-consciência dos complexos ideativos inconscientes carregados de afetos e motivações infantis oriundas do Complexo de Édipo, Complexo de Castração e de frustração e/ou ilusões onipotentes narcísicas infantis, o que impede (consoante com a própria ação de defesa), o ato psicanalítico.

Portanto, a elaboração da dialética entre as defesas psíquicas e as fantasias oriundas da ação psíquica dos impulsos sexuais infantis, com o objetivo do proporcionar a ab-reação dos seus afetos, é a única técnica que pode ser aceita com o nome de técnica psicanalítica.

As outras “técnicas” , oriundas geralmente da aplicação da recusa da castração na abordagem do problema, estão evidentemente a serviço da intenção inconsciente (e até mesmo consciente, para alguns “autores”) em continuar mantendo inconscientes as representações carregadas destes sentimentos e emoções infantis, oriundas dos conflitos provocados na mente da criança pela ação conjunta e conflitante da pulsão sexual e da pulsão de morte . Como a energia geradora do sintoma está exclusivamente investida nessas representações sexuais infantis, “as técnicas que, na realidade, agem no sentido de reforçar a sua inconsciência, não podem ser denominadas de técnicas psicanalíticas, por carecerem de condições epistemológicas para proporcionar a ab-reação destes afetos oriundos da ação psíquica da sexualidade infantil, os quais nutrem as fantasias inconscientes responsáveis pela geração dos sintomas de diversos transtornos psíquicos, incluindo, aqui, a histeria, a neurose obsessiva, a esquizofrenia e as perversões de todos os tipos; também não se pode dizer que “houve análise”, e que os pacientes “foram analisados”, nestes casos.

Em relação às perversões do caráter e às perversões sexuais, os “afetos perigosos” estão investidos nas relações objetais (interpessoais), determinando, aí, a sua ab-reação e contaminando este espaço psíquico, em geral proporcionando lesões aos objetos psicossexuais, à relação interpessoal e a si mesmo de maneira contumaz e, por vezes, em comum acordo, como no sadomasoquismo, por exemplo, ou em qualquer “pacto perverso”.

VI – CONCLUSÃO

Vimos que a hipnose é um poderoso método de acesso aos conteúdos psíquicos inconscientes; a investigação de sintomas histéricos atuais, sob hipnose, nos leva a complexos de idéias inconscientes carregadas de afetos relativos a vivencias anteriores; somente a ab-reação destes afetos ocultos proporciona o desaparecimento dos sintomas.

Este é, e sempre será, o paradigma básico da Psicanálise, isto é, “somente a elaboração da dialética existente entre as defesas psíquicas inconscientes e os impulsos sexuais infantis inconscientes proporciona a ab-reação dos sentimentos e emoções inerentes a este conflito psíquico e, exclusivamente esta ab-reação, destes afetos, é capaz de eliminar sintomas de transtornos mentais”.

A essência destes fatos já está descrita neste Texto.

Autor: LEONARDO FERREIRA DE AZEVEDO E SILVA